Corpos Outros

Porque somos todos pedaços alheios.

Coisa de mais

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Sinto meus olhos pesados. Sinto um vazio pesado. Sinto agora que deveria entregar essa carta. Uma carta feita para não ser lida, que quase não foi escrita, agora quase será entregue. Sinto um coração em pedaços em um corpo que tenta reagir. Se mexe, vive e fala. Enquanto por dentro cai e morre. Ouço músicas de amor. Não consigo concordar, nada que foi escrito-gravado-produzido-lançado-colocado no spotify parece ser o que sinto. Por dentro cai e morre. E esse sou eu ou o amor morrendo? Uma banda que acabei de conhecer e ouço agora (Foxygen) me lembra um pouco The Kinks. É bom até. Será que se te mostrasse ia gostar? Não sei se te mostraria. O item 1 (e único até agora) me volta em mente. Tem tanta coisa na minha cabeça, na verdade coisa de mais. E ainda assim parece um campo vazio.

Vazio.

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Única

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Nem por ninguém

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Verônica Heiss – também conhecida como Verônica H. – é um personagem ficcional (heterônimo) que surgiu em meados de 2005. Sua autora, de identidade desconhecida, nunca revelou muito sobre si. (…) Verônica surgiu como um escape, uma máscara. Foi a maneira que a autora encontrou de expor sentimentos sem expor sua identidade ou até mesmo de falar sobre sentimentos que não eram seus. “Eu escrevia algumas coisas e me perguntavam se eu estava mesmo triste ou apaixonada e por quem. Não, eu não estava. Não eram meus sentimentos. Mas de quem eram, então? Eu precisei nomear alguém para tomar as dores do que não me doía.” (…)”Não vejo motivo no momento para isso acontecer. Tem coisas que eu digo que só a dúvida torna universal. É justamente o fato da Verônica não ter uma idade, um local onde vive ou uma opinião absoluta que a torna um pouco de todos nós. Porque na verdade todos nós somos obrigados a negar as várias idades que temos: ora somos novos e imaturos, ora somos velhos e sábios, pertencemos a vários lugares e somos essa incrível contradição. Verônica veste contradição e sai na rua, é fácil se identificar ou se inspirar nisso.

Do lado de dentro

A verdade é que grandes problemas viram problemas ainda maiores durante o inverno. Até as lembranças ficam meio comprometidas quando seus dedos dos pés estão congelando.

Cuida dela

Diz pra ela que o meu bom dia ainda é dela. E que, se der, outro dia a gente se esbarra e eu levo umas flores pra ela. Faz dela um porto inseguro pra não se deixar levar pela rotina da maré calma. Beija o nariz dela que ela acorda na mesma hora e ainda dá uma espreguiçada com um sorrisão de partir o meu coração por não poder mais acordar ao lado dela. Cuida dela com ternura. Essa garota precisa de alguém com tempo e com todo o coração do mundo pra entender a alma dela. Deixa ela descansar a cabeça no seu ombro, mesmo que você sinta um pouco de medo de se mexer. Eu nunca consegui ficar quieto com ela do lado.

Diz pra ela que ela é meu sonho bom. E que vai ser dureza não ter ligação nenhuma no meu celular pra responder. Coloca um toque personalizado, mas não escolhe nenhuma música especial pra vocês dois. Puxa pruma valsa que ela sabe dançar bem demais. Ela tem um jeitinho de fugir dos meus braços que dá gosto. E não cai na armadilha dela, não. Se enroscar no pescoço dela é perigoso porque você pode ficar ali por tempo demais e se esquecer de olhar bem nos olhos dela. Diz pra ela que eu sei que eles não são castanhos. Os olhos e ela são doces como mel. Dá pra sentir no gosto do primeiro beijo na chuva. E carrega sempre um remédio pra alergia na carteira. Dá pra prevenir os olhos dela de lacrimejarem por algum motivo bobo. Cuida bem pra ela não chorar, viu?

Diz pra ela que eu guardei os ingressos do nosso primeiro cinema e que ontem tava passando o filme na Sessão da Tarde. Ela é meio egoísta durante o sono. Diz pra ela que eu sinto falta das conchinhas e que até parei de reclamar da dor nos braços. Abraça forte sempre que der e escreve uns poemas também.  Garanto que ela vai te inspirar a escrever um livro inteiro.

Diz pra ela que eu soluço só de pensar em como vai ser daqui pra frente e que o meu norte foi embora junto dela. E diz também que eu reconheço que ela deve ser mais feliz com você do que comigo. Diz que eu não me conformo, mas vou tentar pensar nisso como um desvio de percurso – e que, até a gente se reencontrar, eu vou tentar garantir a felicidade dela por meio de umas dicas e recomendações que eu vou dar pra você. Ela gosta de beijos molhados e pouca agilidade na hora de se despir. O suor dela tem um gosto bom, então não precisa – e nem pode – ter nojinho com ela. Compra cerveja ao invés de vinho e põe o chinelo dela na entrada pra ela se livrar logo do salto quando chegar. Não trabalha muito até tarde porque ela vai depender de alguma atenção sua pra ter certeza de que fez uma escolha justa em me deixar.

Cuida bem dela e diz pra ela que um dia a gente se encontra se ela resolver que dá pra ser feliz aqui. Mas se ela preferir ficar por aí, faz dela o seu grande amor. Diz pra ela que a solidão só anda doce porque eu ainda penso nela. E dá um beijo de boa noite na testa dela por mim. E não precisa dizer nada depois disso. Ela vai fechar os olhos e se lembrar de mim.

Que seja

Que eu te encontre num dia ensolarado, nublado, chuvoso, com névoa e te diga alguma coisa. Que eu te reconheça no momento exato em que puser meus olhos em você. E que você saiba que houve um encontro ali. Que você esteja vestida de vermelho, amarelo, azul, verde, preto e branco. Que você me ache engraçadinho, pelo menos. Quem sabe tímido, quem sabe babaca demais, quem sabe charmoso, quem sabe eu nem te chame a atenção. Mas que você me veja com bons olhos e eles encontrem os meus. Que eu acerte a cor dos seus olhos numa brincadeira qualquer. E que aí você perceba o quanto eu te enxergo em tão pouco tempo. Que você seja amiga de algum amigo, ou a gerente do banco, ou a colega de faculdade, ou a menina bonita da balada, ou filha da amiga da minha mãe. Que você se encante comigo de alguma maneira. Que você se permita me conhecer melhor e saber que eu sou legal, ou que sou interessante, ou que não tenho nada a acrescentar a você, ou que eu sou um completo egoísta, ou que eu tenho um blog bacana que fala dessas coisas bonitas que as pessoas acreditam. Mas que você não seja um ponto final. Que seja as aspas, as reticências, o parágrafo, o travessão. Que você seja.

Que você saiba como eu sou complicado, ou que eu sou desajeitado, ou que eu sei dançar muito bem, ou que eu piso no seu pé porque não sei andar em linha reta, ou que eu detesto o cheiro de queijo ralado. Mas que você decida ficar e me conhecer mais, seja por curiosidade ou porque acha que pode se encontrar no meio da minha bagunça. Que a gente se conheça aos poucos, aos muitos, aos tantos, aos beijos, aos toques, aos olhares, aos filmes de fim de tarde, aos cheiros de perfume novo, aos dias de dormir de conchinha, aos minutos de ligações intermináveis.  Que você possa contar comigo, possa dormir comigo, possa brigar comigo. Que você não se arrependa naqueles momentos em que a gente questiona o amor, que você tenha orgulho de me mostrar pras suas amigas e que elas tenham inveja de você. Que eu possa te trazer café na cama, te dar um beijo de surpresa, te ver sem maquiagem, te morder até você ficar sem graça. Que eu não seja odiado pelos seus pais, que eles não me chamem de filho, que seu irmão torça pro mesmo time que eu. Que você me queira como pai dos seus filhos, que você se orgulhe de mim, que você esteja linda quando entrar na igreja.

Que eu possa te fazer sonhar. Que eu possa realizar os teus maiores sonhos e te consolar caso alguma coisa dê errado no meio do caminho. Que eu não saia nunca do seu lado, nem quando você pedir. Que os seus dias de TPM sejam lembrados com risadas e justifiquem aqueles quilos a mais que você ganhar com o brigadeiro. Que você chore bastante. Chore de rir, chore de saudades, chore de alegria. Que eu possa garantir que você não vai se machucar. Que o nosso filho tenha os seus olhos, a sua boca, o seu nariz. Que ele me lembre todos os dias de você. Que a gente caia um pouco na rotina e não mude por isso. Que a gente saia da rotina e se encante com algumas aventuras de vez em quando. Que a gente saiba reconhecer o valor da companhia do outro. Que eu te ame como nunca amei ninguém e que você me modifique da maneira que o seu amor quiser.

Nenhuma opção que não seja ficar um pouco mais

Se você se esquecer de pagar a conta de luz e a gente tiver que se enxergar no escuro, com dois pares de olhos de gato, desacostumados a andar no breu, eu viveria de tatoPassaria as mãos até reconhecer os seus detalhes, mapeando o seu corpo em braile como se eu já soubesse ler cada palavrinha do que ele diz pra mim. Mesmo que no fim do dia não tenha nada pra gente comer na geladeira e eu tenha me atrasado, prometido ligar e desligado, ter furado com você na porta do cinema por causa do trânsito e arrancado as suas plantas do vaso pela entrada brusca com o carro, eu juro que vou tentar não gritar alto.

Mesmo que a sua mãe me evite e eu seja grosseiro, dizendo que a comida dela de domingo tem um gosto clichê de segunda-feira que eu odeio, falando alto e atrapalhando o som das coisas que você ouve, esbravejando contra o seu jeito insistente de me dizer coisas que eu não sei ouvir, enrolando o tempo todo pra levar o lixo pra fora ou pra dizer que te amo, eu dormiria aqui. Na sala mesmo, pra te dar uns momentos de paz a sós e perceber que tu faz falta, guria. Que a gente cai nessa roda viva do dia a dia e se esquece de que ficou porque ama, porque sabia que ia ser assim, mas fere. Fere o outro porque é costume de toda essa gente ferir quem se ama. É porque a gente não trava a língua com quem ama – pra bem e pra mal. E eu não travo nada, mas deveria. Deveria segurar as coisas, contar até dez e me lembrar que pra todo estresse do dia, pra todo problema que surge, pra tudo de ruim que der na telha ou nas infiltrações, a gente tá junto.

Mesmo que a gente bata as portas com violência e diga umas besteiras-adagas, feitas pra machucar e arranhar a pele do outro, eu te juro que não iria embora. A gente daria meia-volta quando chegasse ao térreo ou pararia o carro na entrada da garagem esperando o outro gritar pra ficar (e mesmo sem grito voltaria pedindo desculpas). Mesmo que algo parecesse acabar e cavar um buraco entre a gente repelindo cada um prum lado, fazendo com que você não quisesse mais ouvir minha voz ou dormir comigo, tirando a graça das minhas piadas e trazendo bolsas pros meus olhos, eu ficaria. Mesmo que a gente trabalhe até tarde, durma fora alguns dias por causa das viagens, esqueça a comida dos gatos, deixe a torneira ligada e inunde o nosso andar inteiro, mesmo que tudo pareça dar errado e a gente chegue num ponto em que não se suporte mais, eu vou lembrar do exato momento em que pus os olhos em você.

Mesmo com a falta, com a toalha molhada, com a tampa do vaso levantada, com os berros, as crises, a TPM, seus pais, minhas tias, meus amigos idiotas, suas amigas idiotas, os pirralhos do 601, a TV fora do ar, a Velox que não pega tem 40 dias, o contrato atrasado do apartamento, a falta de atenção ou o prato na pia, a calcinha pendurada no chuveiro, as nossas manias irritantes e as escovas de dentes trocadas, mesmo que falte papel higiênico no banheiro e todas essas coisas que dão vontade de desistir da gente, eu não poderia. E mesmo que você me expulsasse, me pusesse pra fora de mala, cuia e sem cobertor, eu te beijaria e voltaria pra dormir do seu lado, apagar a luz e te buscar no tato, desse meu modo nada romântico, ultrapassado e agridoce de dizer que eu ainda vou te amar – mesmo com tudo isso – amanhã de manhã.

Depois de guardar

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E aí fico o dia todo caçando alguma coisa que me faça lembrar que o dia valeu a pena e que posso ir pra casa um pouco mais ampla, com as janelas mais abertas e os erros perdoados para voltar a cometer.

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Nossos abismos

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Por algum tempo, eles poderiam ter andado juntos sobre o mesmo trilho. Mas nunca seriam esmagados pelo mesmo trem.

Meio

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Assim passavam as horas: deitado na cama, olhando para o teto e escolhendo, entre todos os eus, aquele que melhor eu seria. Bastava permanecer parado para as estrelas acordarem ao primeiro sinal de escuridão. Aquele era o meu segredo: permanecer imóvel para viver o que não existia – o que ainda não e o que nunca mais.

Patienter

amorosa soledad

Tempo lento que não vai

há um lugar no coração que nunca será preenchido
um espaço e mesmo nos melhores momentos
e nos melhores tempos
nós saberemos
nós saberemos mais que nunca
há um lugar no coração que nunca será preenchido
nem pela mesma pessoa novamente.
e nós iremos esperar e esperar
nesse lugar. 

esperar até que a semente vire árvore
até que se volte da longa viagem
até que prefira morrer a chorar novamente
até que não aguente mais soluçar
até que você abra os olhos e veja que esse lugar no coração
nunca será preenchido, ninguém é capaz.

e você vai esperar e esperar nesse lugar
encontrará pessoas, iludirá outros como sempre fez
mas não demorará para que percebas que a ilusão
sempre se fez presente na sua mediocridade vital.

há um lugar no coração que nunca, de maneira ou modo algum,
será preenchido. Ficando apenas
a ferida aberta, exposta para os insetos que te rodeiam.

Eu estou morrendo.
Mas não estou morto ainda.

Depois que a porta fecha

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Quando, com um passo, você fica dois passos mais distante, é porque ela também está indo embora. É aí que você começa a pensar nestes laços invisíveis que nos amarram uns aos outros. Que tamanho eles podem ter? Podem continuar apertados mesmo quando suas pontas já não mais ocupam o mesmo lugar? Sente um fisgão nos pulsos quando abraça outro alguém? Livra-te dos laços. Não falo de cortar. Pode desamarrá-los com o mesmo carinho que tiveste quando os tornaste apertados como braçadeiras. Lembra-te de que laços não são algemas. Agora divida essa corda e presenteia quem você quiser com estes pedaços. Eles são pequenos o suficiente para não virarem nós? Perfeito.

Ainda que

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Não sinto agressividade nenhuma em relação a você. E gosto das tuas histórias. E gosto da tua pessoa. Dá um certo trabalho decodificar todas as emoções contraditórias, confusas, soma-las, diminui-las e tirar essa síntese numa palavra só, esta: gosto.

Dois é bom

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Seja através de clichês cinematográficos ou de prosa da mais alta qualidade, a verdade universal é que só o amor nos humaniza de fato. Pode-se gostar ou não desta ideia, ela pode ser claustrofóbica pra uns e libertária para outros, mas o mundo dá voltas e voltas e chega sempre neste ponto, o de que o amor é mais importante que o dinheiro, que o sexo, que a beleza, ainda que tudo isso seja ótimo também. Mesmo com uma vida recheada de acontecimentos, se estivermos ocos, não veremos muita graça em nada. Poderemos até parecer inteligentes, modernos, sofisticados… mas só o amor responde às nossas indagações – indagações que podem também ser divertidas, inspiradoras, transgressoras, blá, blá, blá… mas ainda irrespondíveis sem amor. Sem amor, neca. Sem amor, babus. Sem amor, o resto é consolo.

É sua, a sua demora

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Deixa estar como está
Este é o nosso lugar
Mesmo quando não há um onde
Deixa o mar varrer
Deixa cicatrizar meu nome
Se você vier
Vamos recomeçar por onde?

Pra gente se encontrar de novo

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Mas tudo bem
O dia vai raiar
Pra gente se inventar de novo

Pra lá

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Mas também, às vezes, a Noite é outra: sozinho, em postura de meditação (será talvez um papel que me atribuo?), penso calmamente no outro, como ele é: suspendo toda interpretação; o desejo continua a vibrar (a obscuridade é transluminosa), mas nada quero possuir; é a noite do sem-proveito, do gasto sutil, invisível: estoy a oscuras:

eu estou lá, sentado simples e calmamente no negro interior do amor. 

Entretempos

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E volta o sax. Quando volta o sax, volta o soco. Mas não um soco duro, você me entende? Um soco manso. Como se a tua barriga fosse uma almofada macia. Como se o próprio punho que bate estivesse meio acolchoado. Tudo macio. Não há ruído. Só uma coisa fofa. Uma dor lenta, vaga. Uma dor que começa a ser dor só aos poucos, não de repente, porque é aos poucos que você começa a perceber que ela existe, a dor.
Antes de a música terminar, ele desligou o som e sentou no tapete em frente do outro.
Você sabe que de alguma maneira a coisa esteve ali, bem próxima. Que você podia tê-la tocado. Você podia tê-la apanhado. No ar, que nem uma fruta. Aí volta o soco. E sem entender, você então pára e pergunta alguma coisa assim: mas de quem foi o erro?
O outro fez um movimento como se fosse falar, mas ele o deteve.
Sei, sei. Você vai perguntar: mas houve um erro? Bem, não sei se a palavra exata é essa, erro. Mas estava ali, tão completamente ali, você me entende?
No segundo seguinte, você ia tocá-la, você ia tê-la. Era tão. Tão imediata. Tão agora. Tão já. E não era. Meu Deus, não era. Foi você que errou? Foi você que não soube fazer o movimento correto? O movimento perfeito, tinha que ser um movimento perfeito. Talvez tenha demonstrado demasiada ansiedade, eu penso. E a coisa se assustou, então. Como se fosse uma fruta madura, à espera de ser colhida. É assim que vejo ela, às vezes. Como uma coisa parada, à espera de ser colhida por alguém que é exatamente você. Não aconteceria com outro. Depois, quando ela foge, penso que não, que não era uma fruta. Que era um bicho, um bichinho desses ariscos. Coelho, borboleta. Um rato. É preciso cuidado com o arisco, senão ele foge. É preciso aprender a se movimentar dentro do silêncio e do tempo. Cada movimento em direção a ele é tão absolutamente lento que o tempo fica meio abolido. Não há tempo. Um bicho arisco vive dentro de uma espécie de eternidade. Duma ilusão de eternidade. Onde ele pode ficar parado para sempre, mastigando o eterno. Para não assustá-lo, para tê-lo dentro dos seus dedos quando eles finalmente se fecharem, você também precisa estar dentro dessa ilusão do eterno.

Sobrelevar

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Descobri faz algum tempo que as mãos se opõem à cabeça, e quando você movimenta aquelas, esta pode parar. Não sei se é uma grande descoberta, talvez não, mas de qualquer forma gosto quando a cabeça pára o maior tempo possível, caso contrário enche-se de temores, suspeitas, desejos, memórias e todas essas inutilidades que as cabeças guardam para deixar vir à tona quando as mãos estão desocupadas. Ocupo-as então, fazendo coisas que depois disponho pelos cantos.

Pra con(s)tar

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Dizem por ai, mas não tenho certeza, que meu sorriso fica mais feliz quando te vejo, dizem também que meus olhos brilham, dizem também que é amor, mas isso sim é certeza.

Teu chá. Meu café.

chá café

Já nos encontramos milhares de vezes neste momento em que o sono acaba e a vida começa. Já nos encontramos milhares de vezes neste momento e todos os dias a única coisa que queremos é que este olhar aconteça: ela a olhar-me e eu a olhá-la: e o mundo a fazer sentido. Se faz o mundo fazer sentido: então é amor.

Sem vírgulas

come away with meAcho que o amor verdadeiro cria um escudo contra a morte. Um covarde não ama ou não ama de verdade, dá no mesmo. Quando o homem é corajoso e verdadeiro, encara a morte de frente, como um caçador de rinocerontes que conheço, Belmonte, que é corajoso de verdade. Como amam com paixão, a morte já não paira em suas mentes. Até que ela retorna, como acontece a todos os homens. E chega a hora de voltar e fazer amor de verdade.

Acordar

jjvMe deu assim um disparo no coração, feito susto que não era bem susto, porque não tinha medo de nada. Ou tinha: medo de uma coisa sem cara nem nome, porque não vinha de fora, mas de dentro de mim.

O que ainda não tivemos tempo de ser

largeE eu quero brincar de esconde-esconde, te emprestar minhas roupas, dizer que amo seus sapatos, sentar na escada enquanto você toma banho, e massagear seu pescoço. E beijar seu rosto, segurar sua mão e sair p’ra andar. Não ligar quando você comer minha comida, e te encontrar numa lanchonete p’ra falar sobre o dia. Falar sobre o seu dia e rir da sua, sua paranóia. E te dar fitas que você não ouve, ver filmes ótimos, ver filmes horríveis. E te contar sobre o programa de TV que assisti na noite anterior e não rir das suas piadas. Te querer pela manhã, mas deixar você dormir mais um pouco. Te dizer o quanto adoro seus olhos, seus lábios, seu pescoço, seus peitos, sua bunda. Sentar na escada, fumando, até seus vizinhos chegarem em casa, sentar na escada, fumando, até você chegar em casa. Me preocupar quando você está atrasado, e me surpreender quando você chega cedo. E te dar girassóis e ir à sua festa e dançar. Me arrepender quando estou errado e feliz quando você me perdoa. Olhar suas fotos e querer ter te conhecido desde sempre. Ouvir sua voz no meu ouvido, sentir sua pele na minha pele, e ficar assustada quando você se irrita. Eu digo que você está linda, e te abraçar quando você estiver aflita, e te apoiar quando você estiver magoada, te querer quando te cheiro, e te irritar quando te toco e choramingar quando estou ao seu lado. E choramingar quando não estou. Debruçar-me no seu peito, te sufocar de noite e sentir frio quando você puxa o cobertor e sentir calor quando você não puxa. Me derreter quando você sorri, me desarmar quando você ri. Mas não entender como você pode achar que estou rejeitando você quando eu não estou te rejeitando, e pensar como você pôde pensar que eu te rejeitaria. E me perguntar quem você é, mas te aceitar do mesmo jeito. E te contar sobre o “tree angel”, “o menino da floresta encantada” que voou todo o oceano porque ele te amava. Comprar presentes que você não quer e devolvê-los de novo. E te pedir em casamento, e você dizer “não” de novo mas continuar pedindo, porque embora você ache que não era de verdade, sempre foi sério, desde a primeira vez que pedi. Ando pela cidade pensando. É vazio sem você mas eu quero o que você quiser e penso. Estou me perdendo, mas vou contar o pior de mim e tentar dar o melhor de mim porque você não merece nada menos que isso. Responder suas perguntas quando prefiro não responder, e dizer a verdade mesmo que eu não queira, e tentar ser honesto porque sei que você prefere. E achar que tudo acabou, espera só mais dez minutos antes de me tirar da sua vida. Esquecer quem eu sou. Tentar chegar mais perto de você, porque é lindo aprender a te conhecer e vale a pena o esforço. E falar mal alemão com você e falar hebraico pior ainda e fazer amor com você às três da manhã e de alguma forma de alguma forma de alguma forma expressar um pouco deste esmagador embaraçoso interminável excessivo insuportável incondicional envolvente enriquecedor-de-coração ampliador-de-mente progressivo infindável amor que eu sinto por você.

Nó que não desata. Laço que não desfaz.

Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras. Se pudesse, diria a ela que fosse embora; mas tenho uma mulher atravessada em minha garganta.

sleep

Agora, como se ainda fosse possível.

Como uma fome, me dava. Mas uma fome de ver, não de comer. Sentava na sala toda arrumada, tapete escovado, cortinas lavadas, cestas de frutas, vasos de flores – acendia um cigarro e ficava mastigando com os olhos a beleza das coisas limpas, ordenadas, sem conseguir comer nada com a boca, faminto de ver. À medida que a casa ficava mais bonita, eu me tornava cada vez mais feio, mais magro, olheiras fundas, faces encovadas. Porque não conseguia dormir nem comer, à espera dele. Agora, agora vou ser feliz, pensava o tempo todo numa certeza histérica. Até que aquele cheiro de alecrim, de hortelã, começasse a ficar mais forte, para então, um dia, escorregar que nem brisa por baixo da porta e se instalar devagarzinho no corredor de entrada, no sofá da sala, no banheiro, na minha cama. Ele tinha chegado.

waitingEsses ritmos, só descobri aos poucos. Mesmo o cheiro de hortelã e alecrim, descobri que era exatamente esse quando encontrei certas ervas numa barraca de feira. Meu coração disparou, imaginei que ele estivesse por perto. Fui seguindo o cheiro, até me curvar sobre o tabuleiro para perceber: eram dois maços verdes, a hortelã de folhinhas miúdas, o alecrim de hastes compridas com folhas que pareciam espinhos, mas não feriam. Perguntei o nome, o homem disse, eu não esqueci. Por pura vertigem, nos dias seguintes repetia quando sentia saudade: alecrim hortelã alecrim hortelã alecrim hortelã alecrim.

Antes, antes ainda, o pressentimento de sua visita trazia unicamente ansiedade, taquicardias, aflição, unhas roídas. Não era bom. Eu não conseguia trabalhar, ir ao cinema, ler ou afundar em qualquer outra dessas ocupações banais que as pessoas como eu têm quando vivem. Só conseguia pensar em coisas bonitas para a casa, e em ficar bonito eu mesmo para encontrá-lo. A ansiedade era tanta que eu enfeiava, à medida que os dias passavam. E, quando ele enfim chegava, eu nunca tinha estado tão feio. Os dragões não perdoam a feiura. Menos ainda a daqueles que honram com sua rara visita.

Depois que ele vinha, o bonito da casa contrastando com o feio do meu corpo, tudo aos poucos começava a desabar. Feito dor, não alegria. Agora agora agora vou ser feliz, eu repetia: agora agora agora. E forçava os olhos pelos cantos de prata esverdeadas, luz fugidia, a ponta em seta de sua cauda pela fresta de alguma porta ou fumaça de suas narinas, sempre mau, e a fumaça, negra. Naqueles dias, enlouquecia cada vez mais, querendo agora já urgente ser feliz. Percebendo minha ânsia, ele tornava-se cada vez mais remoto. Ausentava-se, retirava-se, fingia partir. Rarefazia seu cheiro de ervas até que não passasse de uma suspeita verde no ar. Eu respirava mais fundo, perdia o fôlego no esforço de percebê-lo, dias após dia, enquanto flores e frutas apodreciam nos vasos, nos cestos, nos cantos. Aquelas mosquinhas negras miúdas esvoaçavam em volta delas, agourentas.

Tudo apodrecia mais e mais, sem que eu percebesse, doído do impossível que era tê-lo. Atento somente à minha dor, que apodrecia também, cheirava mal. Então algum dos vizinhos batia à porta para saber se eu tinha morrido e sim, eu queria dizer, estou apodrecendo lentamente, cheirando mal como as pessoas banais ou não, cheiram quando morrem, à espera de uma felicidade que não chega nunca.

Ele não compreenderia. Eu não compreendia, naqueles dias – você compreende?

Escafandro

cigarrete.
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Proteja, amor
até o último suspiro [pausa rápida para respirar]
este fôlego
naufragado em tantos beijos
e proteja sobretudo
o aqualung que eu te dei
ele é nossa garantia
de oxigênio até o fim…
um escafandro dá pra dois
e seu tua mãe quiser morar, eu deixo
faço a minha exigência:
vá dormir quando eu te beijo…
proteja, amor…

É que eu tô surtando

crySe você me encontrar assim, meio distante, torcendo cacho, roendo a mão, é que eu tô pensando num lugar melhor. Ou eu tô amando e isso é bem pior. Se você me encontrar rodando pela casa, fumando filtro, roendo a mão. É que eu não tô sonhando. Eu tenho um plano que eu não sei achar. Ou eu tô ligado e o papel pra acabar. […] Se você me encontrar num bar, desatinado, falando alto coisas cruéis. É que eu tô querendo um cantinho ali ou então descolando alguém pra ir dormir. Mas se eu tiver nos olhos uma luz bonita, fica comigo e me faz feliz. É que eu tô sozinho há tanto tempo que eu me esqueci o que é verdade e o que é mentira em volta de mim.

Medieval II

seaMe chamem de careta, de romântico, de antiquado ou os três juntos. Moderno é leite longa vida de meio litro, sensor de estacionamento, hambúrguer de microondas, internet wireless, asfalto feito com resíduo industrial, que servem pra suprir uma necessidade. Relacionamento aberto é dejeto do nosso convívio ególatra pseudo modernista e não funciona pra coisa nenhuma. Vai lá, como se coração tivesse saída para chip como telefone celular, onde você escolhe a companhia que deseja usar, contudo, a tecnologia do corpo humano estagnou no homo sapiens. Brega é calça boca-de-sino, andar de Maverick, fumar ou usar corrente de ouro, bigode e topete James Dean. Amor e vestidinho preto não saem da passarela. Amar e ser amado é que revoluciona a gente.

Alguém pra chamar de lar

wePerder tempo é a maior demonstração de afeto. A maior gentileza. (…) O tempo sempre foi algoz dos relacionamentos. Convencionou-se explicar que a paixão é biológica, dura apenas dois anos e o resto da convivência é comodismo. Não é verdade, amor não é intensidade que se extravia na duração. Somente descobriremos a intensidade se permitirmos durar. Se existe disponibilidade para errar e repetir. Quem repete o erro logo se apaixonará pelo defeito mais do que pelo acerto e buscará acertar o erro mais do que confirmar o acerto. Pois errar duas vezes é talento, acertar uma vez é sorte. Acima da obsessão de controlar a rotina e os próximos passos, improvisar para permanecer ao lado da esposa. Interromper o que precisamos para despertar novas necessidades. Intensidade é paciência, é capricho, é não abandonar algo porque não funcionou. É começar a cuidar justamente porque não funcionou. Casais há mais de três décadas juntos perderam tempo. Criaram mais chances do que os demais. Superaram preconceitos. Perdoaram medos. Dobraram o orgulho ao longo das brigas. Dormiram antes de tomar uma decisão. Cederam o que tinham de mais precioso: a chance de outras vidas. Dar uma vida a alguém será sempre maior do que qualquer vida imaginada.

Um inteiro sem muito mais

ciúmeHá, em amor, um problema sem possibilidade de solução: – o do ciúme. Quem ama, sente, fatalmente, ciúme. Com ou sem motivos. Isso tem sido assim através dos tempos. Muita gente diz: – ‘Ciúme é falta de confiança’. Seja e não importa. Na minha passagem pelo mundo, venho constatando o seguinte: os amorosos que têm confiança não são amorosos. Ou, pelo menos, não conhecem, ainda, o amor. Observei, também, o seguinte: – quem ama, desconfia, sempre. Desconfia das bobagens mais inverossímeis. Essa desconfiança não apresenta uma base racional, e sim uma base afetiva. O amoroso perde a lucidez, a objetividade, julga através de critérios sentimentais e precaríssimos, usa, para suas conclusões, os dados mais infantis. Acho que o primeiro casal do mundo – no caso, Adão e Eva – deve ter passado pelas mesmas experiências psicológicas. Imagino as brigas, as suspeitas que povoaram o paraíso. Imagino os conflitos, os bate-bocas. No plano do ciúme, Adão e Eva pouco diferiam de um casal dos nossos dias.

Por isso, me espanta que, nesta altura dos acontecimentos, alguém se escandalize porque a criatura amada tenha ciúme. É o que sucede com Miriam. Ela me escreve uma carta sentidíssima. Seu namorado parece, à minha leitora, o melhor do mundo. Ninguém mais cavalheiresco, ninguém com maior solicitude e com uma palavra mais amável e doce. Ele nasceu com a sabedoria dos galanteios que tocam fundo a alma da mulher, que fazem germinar, na alma da mulher, os sonhos mais ardentes. Incapaz de uma grosseria, de uma desatenção, sempre pronto a acariciar, a compreender. Em uma palavra, uma pérola. E seria, de fato, uma pérola cem por cento, não fosse um defeito grave, fonte de atritos e de mágoas: tem ciúme, o rapaz. E ciúme feroz. Miriam escreve-me, fazendo as queixas mais profundas. E diz: – ‘Eu daria tudo para ele não ser assim!’ Pobre Miriam, ingênua Miriam! Mal sabe ela que pior, muito pior do que um homem ciumento é um que o não é. Nada mais desinteressante para uma mulher, nada que decepcione mais, que desencante, do que um homem simples e tranqüilo, que confie nela, que a coloque acima de todas as dúvidas e suspeitas. Vou mais longe: isso é mais do que desagradável – é humilhante. Por quê? Muito simples: porque significa que, na opinião do homem, a mulher não deve inspirar o menor interesse aos outros homens, ou, então, que ela própria deve ser algo de inumano, e, como conseqüência, infalível. Isso, por um lado. Por outro lado, o ciúme não quer dizer, necessariamente, desconfiança. O homem pode confiar, cegamente, em uma mulher e, ainda assim, ser ciumentíssimo. Ele não admite a traição, não quer que ela desvie um milímetro de sua atenção, cuidados e pensamentos, para outro homem. Outro aspecto: – o ciúme serve de estimulo vital para o amor. Observação comum esta, porém, de uma verdade essencial e eterna. Eu sei que Mirim alega: – ‘Ele não tem o menor motivo’. Claro, Miriam, claro! E é preciso que assim seja, ciúme com motivo, com razões fundamentadas, significa que houve infidelidade, traição e que não existe outra alternativa, senão o rompimento. O bom, o doce, o recomendável ciúme, é aquele que nasce sem razão, que nasce sem motivo, que se não baseia em nenhuma prova concreta. Passa, então, a significar, apenas, amor, interesse, ternura e esse universal sentimento de exclusividade. Do contrário, significaria amor-próprio, dignidade ferida e honra.

Portanto, o ideal, o justo, o necessário é o ciúme sem motivo, o ciúme, digamos assim, irracional, no sentido de que prescinde do raciocínio. Ai de você, Miriam, ai do seu amor, se o bem-amado tivesse razão! Ela se lamenta de que o bem-amado tem ciúme. Devia se lamentar e chorar todas as suas lágrimas, se ele não tivesse.

Um agora só pra depois

waiting.

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Guardar um amor daquele entre nós era como querer fazer de um tubarão um animal de estimação – colocá-lo numa coleirinha qualquer e achar que conseguiríamos dar uma volta com ele por aí. O amor pulsa, xinga, explode, quebra, beija, fode, fotografa, come, chora, dança, gargalha, grita, abraça, cobra, cobre, cuida, belisca, perturba, implica, machuca, inventa, reinventa, amassa, vomita, goza, descansa e vive. O amor só não sabe morrer.

Encolher, para não gritar.

sombraEu não queria mais ter esperanças, essa coisa gentil. Isso que chamo de minha vida, ou o que restava dela, e não deveria ser muito porque o passeio dos dedos pelo rosto revela sulcos cada vez mais fundos, estava creio que deliberadamente reduzido àquele subir e descer escadas, mexer nas tintas, recortar papéis, pintar vidraças, enfiar contas, caminhar às vezes pelas ruas esvaziadas de gentes tarde da noite. Eu tinha escolhido assim, num remoto dia qualquer em que deixei de acreditar, não lembraria quando, e isso era para sempre tanto quanto pode ser para sempre o que por estar vivo tem um coração que bate mas, imprevisto e fatal, um dia deixará de bater. Por não querer mais depositar esperanças em nada que pudesse vir de fora, já que de dentro nada mais viria, estava certo, além dessas imagens assustadoras da memória. […] Foi principalmente para não gritar — acabo sempre fazendo coisas para não gritar, como contar esta história —, já que o grito faria ruído e o ruído abalaria os vizinhos, esses mesmos que entram e saem, e com isso, se soubessem de mim que sou cinza e longo, e possivelmente sabem, pois deve ser justamente essa a silhueta que vêem através das vidraças, que tenho um quarto vazio, isso não descobririam, desde que jamais entrem em minha casa, saberiam também que dou gritos em horas inesperadas. Para que ninguém soubesse mais nada de mim, deixei que ganhasse forma e viesse lentamente à tona aquele pensamento. Que não era exatamente um pensamento, mas algo mais fundo, como uma anunciação, um pressentimento. Alguma coisa muito dentro de mim dizia algo informe, sem palavras, que poderia talvez ser expresso como — o outro voltará.

Pra tudo aquilo que não passa, mas acaba.

large (8)Tenho trabalhado tanto, mas sempre penso em você. Mais de tardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira assentada e com mais força quando a noite avança. Não são pensamentos escuros, embora noturnos… Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você. Eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro. Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu. Mas se você tivesse ficado, teria sido diferente? Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais — por que ir em frente? Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia — qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido. Tinha terminado, então. Porque a gente, alguma coisa dentro da gente, sempre sabe exatamente quando termina. Mas de tudo isso, me ficaram coisas tão boas. Uma lembrança boa de você, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. De não morrer, de não sufocar, de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e então não repetir nenhum comportamento. Ser novo. Mesmo que a gente se perca, não importa. Que tenha se transformado em passado antes de virar futuro. Mas que seja bom o que vier, para você, para mim. Te escrevo, enfim, me ocorre agora, porque nem você nem eu somos descartáveis. E eu acho que é por isso que te escrevo, para cuidar de ti, para cuidar de mim – para não querer, violentamente não querer de maneira alguma ficar na sua memória, seu coração, sua cabeça, como uma sombra escura.

Uma dose a mais de futuro

airportSe eu morresse agora, queria poder dizer o tanto que foi apreciar cada canto teu. O incrível de ser mais de um. O absoluto prazer de trançar minhas pernas às suas durante as inúmeras madrugadas. Adormecidas ou não. Se eu morresse agora, queria pedir desculpas por sentir algo tão grande. Algo que não cabe nas mãos. Algo que transborda em meu corpo, e jorra daqui como uma onda gigante. Ora para levar nosso barco para ilhas paradisíacas. Ora para destruir tudo que encontra pela frente. Ora pra ser uma tempestade de lágrimas. Ora pra ser uma chuva que enfeita nossas peles. Se eu morresse agora, iria pedir a Deus um pouco mais de você. Porque morrer não é problema. O ruim, é morrer de saudade. Saudades da tua boca e tudo o que há atrás dela. Saudades dos peitos, dos jeitos, dos tropeços perfeitos pela casa. Saudades dos planos e dos anos que ainda viriam. Saudades até dos futuros herdeiros que não vieram. Mas tinham nomes e sobrenome. E se Deus quisesse, viriam com o teu sorriso.

Mas apesar de.

thinkAndei pensando coisas. O que é raro, dirão os irônicos. Ou “o que foi?” – perguntariam os complacentes. Para estes últimos, quem sabe, escrevo. E repito: andei pensando coisas sobre amor, essa palavra sagrada. O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro(a)- mas a morte é inevitável, portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor – essa pessoa – continua vivo(a), há então uma morte anormal. O NUNCA MAIS de não ter quem se ama torna-se tão irremediável quanto não ter NUNCA MAIS quem morreu. E dói mais fundo – porque se poderia ter, já que está vivo(a). Mas não se tem, nem se terá, quando o fim do amor é: NEVER.

Pensando nisso, pensei um pouco depois em Boy George: meu-amor-me-abandonou-e-sem-ele-eu-nao-vivo-então-quero-morrer-drogado. Lembrei de John Hincley Jr., apaixonado por Jodie Foster, e que escreveu a ela, em 1981: “Se você não me amar, eu matarei o presidente”. E deu um tiro em Ronald Regan. A frase de Hincley é a mais significativa frase de amor do século XX. A atitude de Boy George – se não houver algo de publicitário nisso – é a mais linda atitude de amor do século XX. Penso em Werther, de Goethe. E acho lindo.

No século XX não se ama. Ninguém quer ninguém. Amar é out, é babaca, é careta. Embora persistam essas estranhas fronteiras entre paixão e loucura, entre paixão e suicídio. Não compreendo como querer o outro possa tornar-se mais forte do que querer a si próprio. Não compreendo como querer o outro possa pintar como saída de nossa solidão fatal. Mentira: compreendo sim. Mesmo consciente de que nasci sozinho do útero de minha mãe, berrando de pavor para o mundo insano, e que embarcarei sozinho num caixão rumo a sei lá o quê, além do pó. O que ou quem cruzo entre esses dois portos gelados da solidão é mera viagem: véu de maya, ilusão, passatempo. E exigimos o terno do perecível, loucos.

Depois, pensei também em Adèle Hugo, filha de Victor Hugo. A Adèle H. de François Truffaut, vivida por Isabelle Adjani. Adèle apaixonou-se por um homem. Ele não a queria. Ela o seguiu aos Estados Unidos, ao Caribe, escrevendo cartas jamais respondidas, rastejando por amor. Enlouqueceu mendigando a atenção dele. Certo dia, em Barbados, esbarraram na rua. Ele a olhou. Ela, louca de amor por ele, não o reconheceu. Ele havia deixado de ser ele: transformara-se em símbolo sem face nem corpo da paixão e da loucura dela. Não era mais ele: ela amava alguém que não existia mais, objetivamente. Existia somente dentro dela. Adèle morreu no hospício, escrevendo cartas (a ele: “É para você, para você que eu escrevo” – dizia Ana C.) numa língua que, até hoje, ninguém conseguiu decifrar.

Andei pensando em Adèle H., em Boy George e em John Hincley Jr. Andei pensando nesses extremos da paixão, quando te amo tanto e tão além do meu ego que – se você não me ama: eu enlouqueço, eu me suicido com heroína ou eu mato o presidente. Me veio um fundo desprezo pela minha/nossa dor mediana, pela minha/nossa rejeição amorosa desempenhando papéis tipo sou-forte-seguro-essa-sou-mais-eu. Que imensa miséria o grande amor – depois do não, depois do fim – reduzir-se a duas ou três frases frias ou sarcásticas. Num bar qualquer, numa esquina da vida.

Ai que dor: que dor sentida e portuguesa de Fernando Pessoa – muito mais sábio -, que nunca caiu nessas ciladas. Pois como já dizia Drummond, “o amor car(o,a,) colega esse não consola nunca de núncaras”. E apesar de tudo eu penso sim, eu digo sim, eu quero Sins.

Espiral

take this waltz

Continuar sem ele era começar de novo, de outro chão, como se acabasse de descer do carrinho depois de uma volta assustadora na montanha-russa. De repente, o que era rápido e intenso parou num segundo. Na minha cabeça, tudo continuou rodando. O perigo maior não estava no movimento do brinquedo. O perigo maior era seguir tonta, no silêncio, com o mundo balançando em volta.

Medieval

amor

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Eu vim de um lugar onde os amantes permanecem amantes, e eles se amam até o fim, eles amam, e amam uns aos outros. Eles não seguem nenhuma tendência, eles apenas não querem, eles apenas não se importam com isso.

Não há doce nem droga que resolva

cryNão, não estou desesperada, não mais do que sempre estive, nothing special, baby, não estou louca nem bêbada, estou é lúcida pra caralho e sei claramente que não tenho nenhuma saída, ah não se preocupe, meu bem, depois que você sair tomo banho frio, leite quente com mel de eucalipto, gin-seng e lexotan, depois deito, depois durmo, depois acordo e passo uma semana a ban-chá e arroz integral, absolutamente santa, absolutamente pura, absolutamente limpa, depois tomo outro porre, cheiro cinco gramas, bato o carro numa esquina ou ligo para o CVV às quatro da madrugada e alugo a cabeça dum panaca qualquer choramingando coisas do tipo preciso-tanto-de-uma-razão-para-viver-e-sei-que-esta-razão-só-está-dentro-de-mim-bababá-bababá e me lamurio até o sol pintar atrás daqueles edifícios sinistros, mas não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais destrutiva do que insistir sem fé nenhuma?

Parece ontem. Parecem dez anos. Pouco menos, um.

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Inconscientemente, parecia querer buscar em autores, filmes e músicas, algum tipo de consolo. Como se alguém precisasse chegar bem perto do sofá, onde estava, colocar uma das mãos em seu ombro e dizer que aquilo era normal. Que acontecia também com outras pessoas. E que iria passar.

O outono que tentamos conservar

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Não, os jardins não morrem no inverno, (…) apenas sofrem um pouco mais fundo do que de costume. Coisas assim, eu penso e aprendo olhando meu jardim sobrevivente.

Te fazer igual a qualquer um

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Melhor juntar palavras já testadas:
Amor, Saudade, Beijo, Despedida.
Um saco de figuras repetidas,
Tão gastas que já não te digam nada.

Um olhar sem volta

Quando percebi, estava olhando para as pessoas como se soubesse alguma coisa delas que nem elas mesmas sabiam. Ou então como se as transpassasse. Eram bichos brancos e sujos. Quando as transpassava, via o que tinha sido antes delas, e o que tinha sido antes delas era uma coisa sem cor nem forma, eu podia deixar meus olhos descansarem lá porque eles não se preocupavam em dar nome ou cor ou jeito a nenhuma coisa, era um branco liso e calmo. Mas esse branco liso e calmo me assustava e, quando tentava voltar atrás, começava a ver nas pessoas o que elas não sabiam de si mesmas, e isso era ainda mais terrível. O que elas não sabiam de si era tão assustador que me sentia como se tivesse violado uma sepultura fechada havia vários séculos. A maldição cairia sobre mim: ninguém me perdoaria jamais se soubesse que eu ousara. Ninguém me perdoaria se soubesse que eu sei o que elas são, o que elas eram.

Falta

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Quando vai dando assim, tipo umas onze da noite, o horário que a gente se procurava só pra saber que dá pra terminar o dia sentindo algum conforto. Quando vai chegando esse horário, eu nem sei. É tão estranho ter algo pra fugir de tudo e, de repente, precisar principalmente fugir desse algo. E daí se vai pra onde?

A falta que não fazia parte

Estou no presídio – repetia-me a cada momento. Esta vai ser a minha vida durante muitos anos; o lugar em que  hei de sentir tão inverossímeis, tão mórbidas impressões! E quem sabe? Talvez… quando, passados uns anos, possa finalmente deixá-lo… chegue a sentir saudades disto! Acrescentava, não sem uma mescla dessa maliciosa impressão que às vezes degenera na necessidade de remexermos propositadamente na ferida, pelo desejo de nos distrairmos com o nosso próprio sofrimento, reconhecendo precisamente que no exagero de toda infelicidade há também um prazer.

Até quase ligo

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A vida me parece bela e mágica, mas morro de saudade de você.

A conta gotas

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Você tem alguma receita pra gente mudar de vida? E pra tomar decisões? E para mudar de personalidade? E para flagrar-se? E para pagar o karma em suaves prestações? E pra desorientação aguda, você tem? Se tiver, me passa que eu preciso.

Ontem

Feliz aniversário, hoje fez tempos. Segui adiante, vendi suas fotos pra comprar cigarro. Mas não me julgue, afinal você sempre sustentou meus vícios. Aprendi a lidar com as coisas que você deixou pra cuidar, enfim as perguntas se tornaram respostas. Fiquei sabendo que tentou me visitar. Não me mudei, só desisti de esperar alguém bater na porta. Talvez um dia a gente se encontra e você passe lá em casa pra regar as plantas, porque até as flores tão com saudades tuas. Não esquece, você me deve, oito horas de sono.

Guilherme Mello – http://lembrancasinconscientes.blogspot.com.br/

Vazio

A verdade é que não me sinto capaz de nada. Não é fossa. Fossa dá idéia de uma coisa subjetiva e narcisista. São motivos bem concretos, que inclusive transcendem o plano pessoal. E tudo tão insolúvel que a gente só pode fugir, porque ficar não adianta nada. A minha maneira de fugir, tu sabes, é dormindo. Andei dormindo até quinze horas por dia, durante quase duas semanas. Nos contatos que tenho com gente da minha geração, ou de outras, mas unidos pela mesma lucidez, percebo de maneira intensa a mesma sensação de abandono e de inutilidade. Sobretudo de impotência.

Fluescência

Porque somos todos pedaços alheios.

Fierce People

Porque somos todos pedaços alheios.

Pensar Longe

Porque somos todos pedaços alheios.

palavrasespalhadas

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Aqui dentro de mim

Porque somos todos pedaços alheios.

Lembranças Inconscientes

Porque somos todos pedaços alheios.