Corpos Outros

Porque somos todos pedaços alheios.

Arquivos Mensais: agosto 2011

No choque de nós

Ficavam a encarar-se, e nesse duelo, quem saía perdendo? Enquanto examinava o rosto, guardava dentro de si um pensamento intenso, mas inafirmado em gesto ou palavra. Tinha consciência de estar sendo lento em seu exame, do movimento da mão baixando os óculos, do cigarro batido nas bordas do cinzeiro. E do olhar do outro, também parado, como se dissessem mutuamente me vês? e o que vês em mim? e em que essa visão te acrescenta ou diminui? te causa ódio ou amor ou que outra espécie de sentimento velado? Concordavam mudos, mas não saberiam ir além da primeira pergunta. Não saberiam definir a que espécie de quebrar interior se sujeitavam. Mas sabiam que um ser humano jamais atravessa incólume o círculo magnético de outro.

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No fundo de nós

A gente ta se perdendo todos os dias, pedindo pra pessoas erradas. Mas o negócio é procurar. A gente não se entregar a qualquer tipo de amor ou de entrega. Eu nunca vi porque evitar a fossa. Se a fossa veio é porque tinha que vir, o negócio é viver e tentar esgotar ela. A gente, quando tenta analisar qualquer problema, sempre vai se aprofundando, aprofundando, até que chega nesse fundo que é amor sempre.

Tradução

Não quero lembrar. Faz mal lembrar das coisas que se foram e não voltam. No começo fiquei com raiva, achei que ela não pensou em mais ninguém quando desapareceu. Só nela mesma. Mas a gente nunca pode julgar o que acontece dentro dos outros. Ela queria outra coisa.

– Que coisa?

Nem ela sabia. Repetia isso o dia inteiro: “Quero outra coisa, eu quero encontrar outra coisa”. Não sinto raiva, não sinto nada. Sinto saudade, de vez em quando. Quando penso que podia ter sido diferente.

– Diferente como?

Diferente, diferente. Será que as coisas poderiam mesmo ser diferentes do que são? Não sei se não existe um plano traçado, como um destino, um roteiro. Ela se foi, eu fiquei por aqui, por ali, tocando piano enquanto as pessoas comem, bebem e namoram. Sem escutar o que eu toco.

Tudo que não me deixa em paz

Eu queria ver no escuro do mundo, aonde está o que você quer. Pra me transformar no que te agrada, no que me faça ver quais são as cores e as coisas pra te prender. Eu tive um sonho ruim e acordei chorando, por isso eu te liguei. Será que você ainda pensa em mim? Será que você ainda pensa? Ás vezes te odeio por quase um segundo, depois te amo mais. Teus pêlos, teu gosto, teu rosto, tudo. Tudo que não me deixa em paz. Quais são as cores e as coisas pra te prender?

O certo é que…

Eu quero, certo? Não sei se devo, também não sei se posso. Se é permitido? Sei lá, acho que também não sei o que é dever ou poder, mas agora estou sabendo de um jeito muito claro o que é precisar, certo? E quando a gente precisa, não importa que seja proibido. Querer? Querer a gente inventa.

Seu barco, meu coração

 

Algo me diz que perdemos algo. Pode ser que não seja nada demais. Pode ser que seja a coisa mais importante do mundo. Não faz diferença. A coisa mais importante do mundo, não é nada demais. Você acha que o amor é tudo na vida e, de repente, vê que não sabe nadar. É, você não sabe nadar. E se o avião cair no mar? O amor vai te salvar? Não, a natação vai te salvar. E se você escorregar na piscina? E se o barco afundar? E se um tsunami atingir a tua praia? Eu tô nadando contra a corrente.

Me conta agora como hei de partir

Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir

Até lá

Tô esperando o dia que isso vai passar. Tô esperando acabar, passar, morrer, sangrar até o fim. Esperando o tempo que acalma chamas com seus ventos de mil pés distantes. Esperando alguém que ocupe, distraia, desacorrente, solte, substitua, torne nada demais. Esperando não sentir mais tesão, nem ciúme, nem saudade. Esperando porque é o que resta mesmo, não é falta de coragem.

Pra saber um pouco mais

Eu te amei muito. Acho que você soube. Pena que as grandes e as cucas confusas não saibam amar. Pena também que a gente se envergonhe de dizer, a gente não devia ter vergonha do que é bonito. Penso sempre que um dia a gente vai se encontrar de novo, e que então tudo vai ser mais claro, que não vai mais haver medo nem coisas falsas. Há uma porção de coisas minhas que você não sabe, e que precisaria saber para compreender todas as vezes que fugi de você e voltei e tornei a fugir. São coisas difíceis de serem contadas, mais difíceis talvez de serem compreendidas — se um dia a gente se encontrar de novo, em amor, eu direi delas, caso contrário não será preciso. Essas coisas não pedem resposta nem ressonância alguma em você: eu só queria que você soubesse do muito amor e ternura que eu tinha — e tenho — pra você. Acho que é bom a gente saber que existe desse jeito em alguém, como você existe em mim.

Coma

Há uma razão pela qual eu disse que ia ser feliz sozinha. Não foi porque eu pensei que eu ia ser feliz sozinha. Foi porque eu pensei que se eu amasse alguém, e depois acabasse, talvez eu não conseguisse sobreviver. É mais fácil estar sozinha. Porque se você descobrir que precisa de amor e então você não tem? E se você gostar? E depender dele? E se você modelar a sua vida em torno dele, e então.. ele acaba? Você pode mesmo sobreviver a esse tipo de dor? Perder o amor é como perder um orgão, é como morrer. A única diferença é que a morte termina. E Isso? Isso, pode continuar para sempre.

Deixa ser como será

eu penso conforme o tempo

eu danço conforme o passo

eu passo conforme o espaço

eu amo conforme a fome

eu como conforme a cama

eu sinto conforme o mundo

mas no fundo, eu não me conformo

Porque é daí que nascem as canções

Fim de tarde. Dia banal, terça, quarta-feira. Eu estava me sentindo muito triste. Você pode dizer que isso tem sido freqüente demais, ou até um pouco (ou muito) chato. Mas, que se há de fazer, se eu estava mesmo muito triste? Tristeza-garoa, fininha, cortante, persistente, com alguns relâmpagos de catástrofe futura. Projeções: e amanhã, e depois? e trabalho, amor, moradia? o que vai acontecer? Típico pensamento-nada-a-ver: sossega, o que vai acontecer acontecerá. Relaxa, baby, e flui: barquinho na correnteza, Deus dará. Essas coisas meio piegas, meio burras, eu vinha pensando naquele dia. Resolvi andar. Andar e olhar. Sem pensar, só olhar: caras, fachadas, vitrinas, automóveis, nuvens, anjos bandidos, fadas piradas, descargas de monóxido de carbono. Da praça Roosevelt, fui subindo pela Augusta, enquanto lembrava uns versos de Cecília Meireles, dos Cânticos: “Não digas ‘Eu sofro’. Que é que dentro de ti és tu? / Que foi que te ensinaram/ que era sofrer ?” Mas não conseguia parar. Surdo a qualquer zen-budismo, o coração doía sintonizado com o espinho. Melodrama: nem amor, nem trabalho, nem família, quem sabe nem moradia – coração achando feio o não-ter. Abandono de fera ferida, bolero radical. Última das criaturas, surto de lucidez impiedosa da Big Loira de Dorothy Parker. Disfarçado, comecei a chorar. Troquei os óculos de lentes claras pelos negros ray-ban – filme.

Resplandecente de infelicidade, eu subia a Rua Augusta no fim de tarde do dia tão idiota que parecia não acabar nunca. Ah! como eu precisava tanto de alguém que me salvasse do pecado de querer abrir o gás. Foi então que a vi. Estava encostada na porta de um bar. Um bar brega – aqueles da Augusta-cidade, não Augusta-jardins. Uma prostituta, isso era o mais visível nela. Cabelo malpintado, cara muito maquiada, minissaia, decote fundo. Explícita, nada sutil, puro lugar comum patético. Em pé, de costas para o bar, encostada na porta, ela olhava a rua. Na mão direita tinha um cigarro, na esquerda um copo de cerveja.

E chorava, ela chorava. Sem escândalo, sem gemidos nem soluços, a prostituta na frente do bar chorava devagar, de verdade. A tinta da cara escorria com as lágrimas. Meio palhaça, chorava olhando a rua. Vez em quando, dava uma tragada no cigarro, um gole na cerveja. E continuava a chorar – exposta, imoral, escandalosa – sem se importar que a vissem sofrendo. Eu vi. Ela não me viu. Não via ninguém, acho. Tão voltada para a própria dor que estava, também, meio cega. Via pra dentro: charco, arame farpado, grades. Ninguém parou. Eu, também, não. Não era um espetáculo imperdível, não era uma dor reluzente de néon, não estava enquadrada ou decupada. Era uma dor sujinha como lençol usado por um mês, sem lavar, pobrinha como buraco na sola do sapato. Furo na meia, dente cariado. Dor sem glamour, de gente habitando aquela camada casca grossa da vida. Sem o recurso dessas benditas levezas de cada dia – uma dúzia de rosas, uma música de Caetano, uma caixa de figos. Comecei a emergir. Comparada à dor dela, que ridícula a minha, dor de brasileiro-médio-privilegiado.

Fui caminhando mais leve. Mas só quando cheguei à Paulista compreendi um pouco mais. Aquela prostituta chorando, além de eu mesmo, era também o Brasil. Brasil 87: explorado, humilhado, pobre, escroto, vulgar, maltratado, abandonado, sem um tostão, cheio de dívidas, solidão, doença e medo. Cerveja e cigarro na porta do boteco vagabundo: carnaval, futebol. E lágrimas. Quem consola aquela prostituta? Quem me consola? Quem consola você, que me lê agora e talvez sinta coisas semelhantes? Quem consola este país tristíssimo? Vim pra casa humilde. Depois, um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso. E fui. Não por nobreza: cuidar dele faria com que eu me esquecesse de mim. E fez. Quando gemeu “dói tanto”, contei da moça vadia chorando, bebendo e fumando (como num bolero). E quando ele perguntou “porquê?”, compreendi ainda mais. Falei: “Porque é daí que nascem as canções”. E senti um amor imenso. Por tudo, sem pedir nada de volta. Não-ter pode ser bonito, descobri. Mas pergunto inseguro, assustado: a que será que se destina?

Tínhamos chegado ao topo

Me colocou no seu colo e me deu o abraço que disparava corações em mim como se eu tivesse um em cada nó de veia. E me disse, com sua voz tão bonita, a mais bonita que eu já ouvi, que eu tinha subido todos os seus andares. Eu entendi que você era o ser da cobertura de aço e eu uma espécie rara de passarinho que tinha algum tipo de chave que se autodestruiria em poucos segundos. E eu entendi também que agora que tinha chegado ali, só me restava pular, já que ninguém aguenta o alto tão alto muito tempo.

Ei,

Eu não te amo, não gosto de você, não te quero pra sempre. Você não é tudo que eu quero. Não é o amor da minha vida. Você não é nada disso. Nada disso que esses namorados agarrados em praças, abraçados em bares, trancados em carros suados, deitados em motéis ficam dizendo.

Você não é nada disso que esses poetas ficam falando e falando e esses cantores ficam cantando e cantando por aí. Eu não te amo, não gosto de você, não te quero pra sempre. Você não é tudo que eu queria, Não é o amor da minha vida. Você não é nada disso.

Não tem nada a ver com esse amores de televisão, essas coisas grandes que a gente fica invejando. Esses tantos de declarações que ficam repetindo e repetindo e falando cada vez mais alto.

Toda vez que falo que te amo, quero desfalar. Me dá vontade de entrar no seu ouvido, pegar cada uma das letras, colocá-las de novo na minha boca que engolir com um copo de água. Porque eu não te amo. Já te amei muito, mas não te amo mais. Toda vez que falo isso ou alguma coisa parecida é mentira.

Porque toda vez que digo te amo é como se te xingasse, como se te desrespeitasse. Como chamasse o Papa de você. Como se chamasse Deus de amiguinho. Por isso não te amo, por isso não me declaro, por isso não agradeço por você existir: quem é vivo nunca percebe a vida.

Quando se diz ‘Te amo’ é como se disséssemos ‘olha, isso é o máximo que eu consigo dizer, é o limite entre o que dá pra falar e o que não dá pra falar. Como passei dessa placa já faz alguns quilômetros, eu não te amo mais.

Você já parou pra pensar que falar de sorvete é fácil, falar do gosto do sorvete é fácil, mas falar o gosto do sorvete é impossível? Você nunca vai conseguir falar o gosto daquele sorvete – pode até falar do gosto, mas nunca o gosto. Nenhum adjetivo consegue mostrar o que você sentiu quando ganhou a primeira boneca, quando viu o mar, quando o cachorrinho morreu, quando quebrou o pé,  quando menstruou. É como se essas coisas estivessem trancadas dentro da gente e não tem jeito de fazê-las sair. Tudo que a gente fala não as tira de dentro. Nem as mostra pros outros. Só avisa que tem alguma coisa ali. Alguma coisa, não fala bem o quê. Fala de um sorvete, mas não de qual, de uma alegria, mas não de que cor, de uma dorzinha, mas não de que sabor, de que cheiro, de que textura, com quantas curvas, de quantos gramas, nascido em que dia, de qual ascendente, filha de quem, estuda em qual escola, ouve que tipo de música, não fala se aquele medo sabe dançar, não fala se aquele azedinho do quiabo é bom de futebol, não fala com quantos ornitorrincos aquela porta já conversou ou com qual fonte se escreve timidez. Falar não fala nada. Não adianta pras coisas importantes. É um quebra-galho bem fuleiro.

Se isso é assim com feijão-com-arroz de todo dia, imagina depois do eu-te-amo!

Por isso quero falar cada vez menos com você e que você desconfie cada vez mais depressa. O depois de amar é aprender a ficar em silêncio. Depois do amor a declaração é ir se calando, ficando quietinho num silêncio quentinho. Aceitar que não dá pra chegar, só chegar perto. Ficar te olhando, te olhando até não precisar te olhar porque até quando vejo o teclado do computador estou te vendo. Ficar lembrando, lembrando de você até poder te esquecer porque não dá mais pra te esquecer. E tudo sem fazer barulho, sem gritar, sem pôr roupa de sair, sem comprar presente caro, sem passar perfume. Só uma timidez segura, uma pobreza rica, uma humildade arrogante, correr dormindo.

Eu não te amo, aceite isso. Aceite isso que é o melhor que eu tenho pra te dar. Não te quero, não te desejo porque o céu não quer o azul, porque a chuva não quer o molhado, o lápis não deseja escrever, o sono não quer dormir, a música não quer nem saber de melodia, a letra não pretende a palavra nem o canto a voz, entende? Você em mim é o verbo de mim.

Não quero ficar com você pra sempre, quero é ficar com você meu passado inteiro, até bem antes da gente nascer. Quero é viver o que já vivi antes de te conhecer cinquenta e três vezes contigo, aí a gente descansa, vive mais uma, descansa de novo e vive mais setenta e duas. Não quero saber de futuro contigo: vamos rasgar tudo que é relógio de alguma coisa e molhar tudo que é calendário e rabsicar tudo. Não quero saber de amanhã nem depois de amanhã. Quero que às seis da tarde nunca cheguem. Nada de casar, pagar Unimed e ficar velhinhos e viajar. O objetivo é ir ficando moleque, menina e menino beijando estalinho atrás da igreja, cada vez mais irresponsáveis, pulando janelas das suas casas e roubando frutas. Vamos ficar treinando origami com meu corpo, até você inventar uma dobra danada que me faça caber embaixo da sua unha, aí você me rasga em des pedaços, um pra cada dedo. Depois disso você já pode comprar uma torta de chocolate com limão e conhaque e comê-la com as mãos, se lambuzando. Depois você vai lamber as pontinhas dos dedos e me guardar suavemente, sem mastigar.

Não te amo, não te quero e nem quero saber de pra sempre. Que o mundo acabe em sorvete e namoro. Não, não. Que ele comece.

A falta

E mesmo sorrindo por ai, cada um sabe a falta que o outro faz. Nunca mais se viram, nunca mais se tocaram e nunca mais serão os mesmos. É fácil porque os dias passam rápidos demais, é dificil porque o sentimento fica, vai ficando e permanece dentro deles.

Diacronia

Eu escrevo teu nome nessas pedras, que vou jogando por onde passo. No fundo, espero que você me siga, mas não tenho coragem de pedir. Aí, tem gente que vem, sem nem ser chamado, sem nem se importar com o fato do nome escrito ali, ser outro. As pessoas não ligam pr´essas pequenezas, sabe? Eu ligo. Ligo pra tudo. Sou mais de detalhes, que do todo. Sempre fui. O fato é que fico olhando pra trás pra ver se você tá vindo e já tropecei umas quantas vezes. Esses dias mais. Isso porque não sinto teu cheiro no ar, não ouço o teu riso passeando pelas horas. E sinto falta. E sinto um quase-medo. Embora, não tenha a menor idéia de quê. Sabe quando você pressente o monstro no escuro, mesmo sem poder vê-lo? É assim. Não sei se você entende, não sei se alguém entende e, realmente, não me importo. Não me importo mais com um monte de coisas. Dos benefícios do tempo. Hoje, parei e sentei bem aqui na beira desse rio que me atravessa. Só pra te pensar bem forte e te fazer sentir amor do lado de lá. Sim, porque você ainda não atravessou a ponte, bem sei. Mas, ando me sentindo fraca e cansada. Tenho andado demais, jogado pedras demais, esperado demais e você não me alcança. Talvez, seja melhor mergulhar e afogar os pensamentos. Espero que você consiga chegar a tempo e salvar os mais bonitos.

Insisto

Queria que soubessem que se não existir amor nesse mundo, eu faço outro, tantos mundos quantos forem necessários.

Gostava do avesso

Eu tinha uma ideia de amor não baseada na nossa realidade, e talvez tenha sido esse meu pecado.

Amor sem aviso prévio

 
Não perca o agora, o hoje e tudo que está ao seu redor. Principalmente as pessoas. Pois, se não notou, é por elas que você busca grandes coisas. De todos os beijos que você dá, nunca saberá qual deles será o de despedida.
 

Você

Você é tão errado e cheio de estragos. E me peguei olhando pra tudo isso e amando tanto, tanto, tanto. Como se nada mais no mundo fosse tão bonito ou correto ou mesmo perfeito, porque perfeito é o que não tem mesmo cabimento.

Depois do fim

Enquanto você não está, o vento segue uivando, as árvores continuam a balançar e ela pode até vir a conhecer alguém que, em princípio, é bem mais interessante que você e isso vai certamente te entristecer um bocado. Por isso é que eu digo que às vezes é bom você relaxar a soltar esse guidão que te prende a um ridículo cavalo de fibra de carbono. Deixe a força centrífuga agir sobre você, lhe alçando em vôo desordenado pra fora dessa roda. Na maioria dos casos, há um lado positivo em se ver esborrachado no chão, colhendo dentes que caíram da sua boca. É positivo porque somente assim você vai ser parte daquilo que sempre via como um enorme borrão e entortava o pescoço pra entender o que era: o mundo. E você vai ser parte desse mundo, não mais mero espectador de câmeras de vigilância. Você vai, inclusive, ver que ela continua presa ao carrossel e que o cara que ela conheceu lá é, de fato, um tremendo boçal, segurando-se todo medroso naquele cavalo. Ela acha que tem as rédeas da própria vida sem perceber que está encilhada desde que nasceu, e apanhando, de relho. E você, sujo e sem dentes, vai rir muito disso tudo daqui a pouco, pode acreditar.

Falta. Sem fim.

Daí que sobra essa sensação de uma solidão filha da puta mil vezes pois em nada dá pra ser com você. E tudo bem, não é você, nunca foi, mas escuta a maluquice: é que nada disso impede que eu sinta um amor absurdo por você.

É mais do que isso

Se uma pessoa diz a outra que a ama, a própria linguagem supõe a expressão “para sempre”. Não tem sentido dizer: – Amo-te, mas provavelmente só durará uns meses, ou uns anos, desde que continues a ser simpática e agradável, ou eu não encontre outra melhor, ou não fiques feia com a idade. Um “amo-te” que implica “só por algum tempo” não é um amor verdadeiro. É antes um “gosto de ti, agradas-me , sinto-me bem contigo, mas de modo algum estou disposto a entregar-me inteiramente, nem a entregar-te a minha vida”.

Não trocaria um sorvete de flocos por você

– Saudade?

– Só um pouquinho. Um pouquinho o tempo todo.

 

Volta

Quero você aqui, no meio das minhas coisas, meus livros, discos, filmes, minhas ideias, manias, suspiros, recortes. Respirando o mesmo ar e todas coisas que alimentam àquela nossa, tua, minha inesgotável saudade. Entra, não pergunte se pode ficar. Vem e fica. Vai e volta.

Sugestões para atravessar agosto

Para atravessar agosto é preciso, antes de tudo, paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro – e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah! Escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.

Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir, dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons, deixam a vontade impossível de morar neles, se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos. Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente, agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos – ou precauções-úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia categoria originalidade…Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo ZAP): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.

Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu – sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.

Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques – tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informações para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas – coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo, evasão, escapismos, explícitos.

Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter de mais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco.

 

6/8/1995 – para o Jornal O Estado de São Paulo

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