Corpos Outros

Porque somos todos pedaços alheios.

Arquivos Mensais: maio 2013

Um inteiro sem muito mais

ciúmeHá, em amor, um problema sem possibilidade de solução: – o do ciúme. Quem ama, sente, fatalmente, ciúme. Com ou sem motivos. Isso tem sido assim através dos tempos. Muita gente diz: – ‘Ciúme é falta de confiança’. Seja e não importa. Na minha passagem pelo mundo, venho constatando o seguinte: os amorosos que têm confiança não são amorosos. Ou, pelo menos, não conhecem, ainda, o amor. Observei, também, o seguinte: – quem ama, desconfia, sempre. Desconfia das bobagens mais inverossímeis. Essa desconfiança não apresenta uma base racional, e sim uma base afetiva. O amoroso perde a lucidez, a objetividade, julga através de critérios sentimentais e precaríssimos, usa, para suas conclusões, os dados mais infantis. Acho que o primeiro casal do mundo – no caso, Adão e Eva – deve ter passado pelas mesmas experiências psicológicas. Imagino as brigas, as suspeitas que povoaram o paraíso. Imagino os conflitos, os bate-bocas. No plano do ciúme, Adão e Eva pouco diferiam de um casal dos nossos dias.

Por isso, me espanta que, nesta altura dos acontecimentos, alguém se escandalize porque a criatura amada tenha ciúme. É o que sucede com Miriam. Ela me escreve uma carta sentidíssima. Seu namorado parece, à minha leitora, o melhor do mundo. Ninguém mais cavalheiresco, ninguém com maior solicitude e com uma palavra mais amável e doce. Ele nasceu com a sabedoria dos galanteios que tocam fundo a alma da mulher, que fazem germinar, na alma da mulher, os sonhos mais ardentes. Incapaz de uma grosseria, de uma desatenção, sempre pronto a acariciar, a compreender. Em uma palavra, uma pérola. E seria, de fato, uma pérola cem por cento, não fosse um defeito grave, fonte de atritos e de mágoas: tem ciúme, o rapaz. E ciúme feroz. Miriam escreve-me, fazendo as queixas mais profundas. E diz: – ‘Eu daria tudo para ele não ser assim!’ Pobre Miriam, ingênua Miriam! Mal sabe ela que pior, muito pior do que um homem ciumento é um que o não é. Nada mais desinteressante para uma mulher, nada que decepcione mais, que desencante, do que um homem simples e tranqüilo, que confie nela, que a coloque acima de todas as dúvidas e suspeitas. Vou mais longe: isso é mais do que desagradável – é humilhante. Por quê? Muito simples: porque significa que, na opinião do homem, a mulher não deve inspirar o menor interesse aos outros homens, ou, então, que ela própria deve ser algo de inumano, e, como conseqüência, infalível. Isso, por um lado. Por outro lado, o ciúme não quer dizer, necessariamente, desconfiança. O homem pode confiar, cegamente, em uma mulher e, ainda assim, ser ciumentíssimo. Ele não admite a traição, não quer que ela desvie um milímetro de sua atenção, cuidados e pensamentos, para outro homem. Outro aspecto: – o ciúme serve de estimulo vital para o amor. Observação comum esta, porém, de uma verdade essencial e eterna. Eu sei que Mirim alega: – ‘Ele não tem o menor motivo’. Claro, Miriam, claro! E é preciso que assim seja, ciúme com motivo, com razões fundamentadas, significa que houve infidelidade, traição e que não existe outra alternativa, senão o rompimento. O bom, o doce, o recomendável ciúme, é aquele que nasce sem razão, que nasce sem motivo, que se não baseia em nenhuma prova concreta. Passa, então, a significar, apenas, amor, interesse, ternura e esse universal sentimento de exclusividade. Do contrário, significaria amor-próprio, dignidade ferida e honra.

Portanto, o ideal, o justo, o necessário é o ciúme sem motivo, o ciúme, digamos assim, irracional, no sentido de que prescinde do raciocínio. Ai de você, Miriam, ai do seu amor, se o bem-amado tivesse razão! Ela se lamenta de que o bem-amado tem ciúme. Devia se lamentar e chorar todas as suas lágrimas, se ele não tivesse.

Um agora só pra depois

waiting.

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Guardar um amor daquele entre nós era como querer fazer de um tubarão um animal de estimação – colocá-lo numa coleirinha qualquer e achar que conseguiríamos dar uma volta com ele por aí. O amor pulsa, xinga, explode, quebra, beija, fode, fotografa, come, chora, dança, gargalha, grita, abraça, cobra, cobre, cuida, belisca, perturba, implica, machuca, inventa, reinventa, amassa, vomita, goza, descansa e vive. O amor só não sabe morrer.

Encolher, para não gritar.

sombraEu não queria mais ter esperanças, essa coisa gentil. Isso que chamo de minha vida, ou o que restava dela, e não deveria ser muito porque o passeio dos dedos pelo rosto revela sulcos cada vez mais fundos, estava creio que deliberadamente reduzido àquele subir e descer escadas, mexer nas tintas, recortar papéis, pintar vidraças, enfiar contas, caminhar às vezes pelas ruas esvaziadas de gentes tarde da noite. Eu tinha escolhido assim, num remoto dia qualquer em que deixei de acreditar, não lembraria quando, e isso era para sempre tanto quanto pode ser para sempre o que por estar vivo tem um coração que bate mas, imprevisto e fatal, um dia deixará de bater. Por não querer mais depositar esperanças em nada que pudesse vir de fora, já que de dentro nada mais viria, estava certo, além dessas imagens assustadoras da memória. […] Foi principalmente para não gritar — acabo sempre fazendo coisas para não gritar, como contar esta história —, já que o grito faria ruído e o ruído abalaria os vizinhos, esses mesmos que entram e saem, e com isso, se soubessem de mim que sou cinza e longo, e possivelmente sabem, pois deve ser justamente essa a silhueta que vêem através das vidraças, que tenho um quarto vazio, isso não descobririam, desde que jamais entrem em minha casa, saberiam também que dou gritos em horas inesperadas. Para que ninguém soubesse mais nada de mim, deixei que ganhasse forma e viesse lentamente à tona aquele pensamento. Que não era exatamente um pensamento, mas algo mais fundo, como uma anunciação, um pressentimento. Alguma coisa muito dentro de mim dizia algo informe, sem palavras, que poderia talvez ser expresso como — o outro voltará.

Pra tudo aquilo que não passa, mas acaba.

large (8)Tenho trabalhado tanto, mas sempre penso em você. Mais de tardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira assentada e com mais força quando a noite avança. Não são pensamentos escuros, embora noturnos… Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você. Eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro. Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu. Mas se você tivesse ficado, teria sido diferente? Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais — por que ir em frente? Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia — qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido. Tinha terminado, então. Porque a gente, alguma coisa dentro da gente, sempre sabe exatamente quando termina. Mas de tudo isso, me ficaram coisas tão boas. Uma lembrança boa de você, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. De não morrer, de não sufocar, de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e então não repetir nenhum comportamento. Ser novo. Mesmo que a gente se perca, não importa. Que tenha se transformado em passado antes de virar futuro. Mas que seja bom o que vier, para você, para mim. Te escrevo, enfim, me ocorre agora, porque nem você nem eu somos descartáveis. E eu acho que é por isso que te escrevo, para cuidar de ti, para cuidar de mim – para não querer, violentamente não querer de maneira alguma ficar na sua memória, seu coração, sua cabeça, como uma sombra escura.

Uma dose a mais de futuro

airportSe eu morresse agora, queria poder dizer o tanto que foi apreciar cada canto teu. O incrível de ser mais de um. O absoluto prazer de trançar minhas pernas às suas durante as inúmeras madrugadas. Adormecidas ou não. Se eu morresse agora, queria pedir desculpas por sentir algo tão grande. Algo que não cabe nas mãos. Algo que transborda em meu corpo, e jorra daqui como uma onda gigante. Ora para levar nosso barco para ilhas paradisíacas. Ora para destruir tudo que encontra pela frente. Ora pra ser uma tempestade de lágrimas. Ora pra ser uma chuva que enfeita nossas peles. Se eu morresse agora, iria pedir a Deus um pouco mais de você. Porque morrer não é problema. O ruim, é morrer de saudade. Saudades da tua boca e tudo o que há atrás dela. Saudades dos peitos, dos jeitos, dos tropeços perfeitos pela casa. Saudades dos planos e dos anos que ainda viriam. Saudades até dos futuros herdeiros que não vieram. Mas tinham nomes e sobrenome. E se Deus quisesse, viriam com o teu sorriso.

Mas apesar de.

thinkAndei pensando coisas. O que é raro, dirão os irônicos. Ou “o que foi?” – perguntariam os complacentes. Para estes últimos, quem sabe, escrevo. E repito: andei pensando coisas sobre amor, essa palavra sagrada. O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro(a)- mas a morte é inevitável, portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor – essa pessoa – continua vivo(a), há então uma morte anormal. O NUNCA MAIS de não ter quem se ama torna-se tão irremediável quanto não ter NUNCA MAIS quem morreu. E dói mais fundo – porque se poderia ter, já que está vivo(a). Mas não se tem, nem se terá, quando o fim do amor é: NEVER.

Pensando nisso, pensei um pouco depois em Boy George: meu-amor-me-abandonou-e-sem-ele-eu-nao-vivo-então-quero-morrer-drogado. Lembrei de John Hincley Jr., apaixonado por Jodie Foster, e que escreveu a ela, em 1981: “Se você não me amar, eu matarei o presidente”. E deu um tiro em Ronald Regan. A frase de Hincley é a mais significativa frase de amor do século XX. A atitude de Boy George – se não houver algo de publicitário nisso – é a mais linda atitude de amor do século XX. Penso em Werther, de Goethe. E acho lindo.

No século XX não se ama. Ninguém quer ninguém. Amar é out, é babaca, é careta. Embora persistam essas estranhas fronteiras entre paixão e loucura, entre paixão e suicídio. Não compreendo como querer o outro possa tornar-se mais forte do que querer a si próprio. Não compreendo como querer o outro possa pintar como saída de nossa solidão fatal. Mentira: compreendo sim. Mesmo consciente de que nasci sozinho do útero de minha mãe, berrando de pavor para o mundo insano, e que embarcarei sozinho num caixão rumo a sei lá o quê, além do pó. O que ou quem cruzo entre esses dois portos gelados da solidão é mera viagem: véu de maya, ilusão, passatempo. E exigimos o terno do perecível, loucos.

Depois, pensei também em Adèle Hugo, filha de Victor Hugo. A Adèle H. de François Truffaut, vivida por Isabelle Adjani. Adèle apaixonou-se por um homem. Ele não a queria. Ela o seguiu aos Estados Unidos, ao Caribe, escrevendo cartas jamais respondidas, rastejando por amor. Enlouqueceu mendigando a atenção dele. Certo dia, em Barbados, esbarraram na rua. Ele a olhou. Ela, louca de amor por ele, não o reconheceu. Ele havia deixado de ser ele: transformara-se em símbolo sem face nem corpo da paixão e da loucura dela. Não era mais ele: ela amava alguém que não existia mais, objetivamente. Existia somente dentro dela. Adèle morreu no hospício, escrevendo cartas (a ele: “É para você, para você que eu escrevo” – dizia Ana C.) numa língua que, até hoje, ninguém conseguiu decifrar.

Andei pensando em Adèle H., em Boy George e em John Hincley Jr. Andei pensando nesses extremos da paixão, quando te amo tanto e tão além do meu ego que – se você não me ama: eu enlouqueço, eu me suicido com heroína ou eu mato o presidente. Me veio um fundo desprezo pela minha/nossa dor mediana, pela minha/nossa rejeição amorosa desempenhando papéis tipo sou-forte-seguro-essa-sou-mais-eu. Que imensa miséria o grande amor – depois do não, depois do fim – reduzir-se a duas ou três frases frias ou sarcásticas. Num bar qualquer, numa esquina da vida.

Ai que dor: que dor sentida e portuguesa de Fernando Pessoa – muito mais sábio -, que nunca caiu nessas ciladas. Pois como já dizia Drummond, “o amor car(o,a,) colega esse não consola nunca de núncaras”. E apesar de tudo eu penso sim, eu digo sim, eu quero Sins.

Espiral

take this waltz

Continuar sem ele era começar de novo, de outro chão, como se acabasse de descer do carrinho depois de uma volta assustadora na montanha-russa. De repente, o que era rápido e intenso parou num segundo. Na minha cabeça, tudo continuou rodando. O perigo maior não estava no movimento do brinquedo. O perigo maior era seguir tonta, no silêncio, com o mundo balançando em volta.

Medieval

amor

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Eu vim de um lugar onde os amantes permanecem amantes, e eles se amam até o fim, eles amam, e amam uns aos outros. Eles não seguem nenhuma tendência, eles apenas não querem, eles apenas não se importam com isso.

Não há doce nem droga que resolva

cryNão, não estou desesperada, não mais do que sempre estive, nothing special, baby, não estou louca nem bêbada, estou é lúcida pra caralho e sei claramente que não tenho nenhuma saída, ah não se preocupe, meu bem, depois que você sair tomo banho frio, leite quente com mel de eucalipto, gin-seng e lexotan, depois deito, depois durmo, depois acordo e passo uma semana a ban-chá e arroz integral, absolutamente santa, absolutamente pura, absolutamente limpa, depois tomo outro porre, cheiro cinco gramas, bato o carro numa esquina ou ligo para o CVV às quatro da madrugada e alugo a cabeça dum panaca qualquer choramingando coisas do tipo preciso-tanto-de-uma-razão-para-viver-e-sei-que-esta-razão-só-está-dentro-de-mim-bababá-bababá e me lamurio até o sol pintar atrás daqueles edifícios sinistros, mas não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais destrutiva do que insistir sem fé nenhuma?

Fluescência

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