Corpos Outros

Porque somos todos pedaços alheios.

Arquivos Mensais: junho 2013

Agora, como se ainda fosse possível.

Como uma fome, me dava. Mas uma fome de ver, não de comer. Sentava na sala toda arrumada, tapete escovado, cortinas lavadas, cestas de frutas, vasos de flores – acendia um cigarro e ficava mastigando com os olhos a beleza das coisas limpas, ordenadas, sem conseguir comer nada com a boca, faminto de ver. À medida que a casa ficava mais bonita, eu me tornava cada vez mais feio, mais magro, olheiras fundas, faces encovadas. Porque não conseguia dormir nem comer, à espera dele. Agora, agora vou ser feliz, pensava o tempo todo numa certeza histérica. Até que aquele cheiro de alecrim, de hortelã, começasse a ficar mais forte, para então, um dia, escorregar que nem brisa por baixo da porta e se instalar devagarzinho no corredor de entrada, no sofá da sala, no banheiro, na minha cama. Ele tinha chegado.

waitingEsses ritmos, só descobri aos poucos. Mesmo o cheiro de hortelã e alecrim, descobri que era exatamente esse quando encontrei certas ervas numa barraca de feira. Meu coração disparou, imaginei que ele estivesse por perto. Fui seguindo o cheiro, até me curvar sobre o tabuleiro para perceber: eram dois maços verdes, a hortelã de folhinhas miúdas, o alecrim de hastes compridas com folhas que pareciam espinhos, mas não feriam. Perguntei o nome, o homem disse, eu não esqueci. Por pura vertigem, nos dias seguintes repetia quando sentia saudade: alecrim hortelã alecrim hortelã alecrim hortelã alecrim.

Antes, antes ainda, o pressentimento de sua visita trazia unicamente ansiedade, taquicardias, aflição, unhas roídas. Não era bom. Eu não conseguia trabalhar, ir ao cinema, ler ou afundar em qualquer outra dessas ocupações banais que as pessoas como eu têm quando vivem. Só conseguia pensar em coisas bonitas para a casa, e em ficar bonito eu mesmo para encontrá-lo. A ansiedade era tanta que eu enfeiava, à medida que os dias passavam. E, quando ele enfim chegava, eu nunca tinha estado tão feio. Os dragões não perdoam a feiura. Menos ainda a daqueles que honram com sua rara visita.

Depois que ele vinha, o bonito da casa contrastando com o feio do meu corpo, tudo aos poucos começava a desabar. Feito dor, não alegria. Agora agora agora vou ser feliz, eu repetia: agora agora agora. E forçava os olhos pelos cantos de prata esverdeadas, luz fugidia, a ponta em seta de sua cauda pela fresta de alguma porta ou fumaça de suas narinas, sempre mau, e a fumaça, negra. Naqueles dias, enlouquecia cada vez mais, querendo agora já urgente ser feliz. Percebendo minha ânsia, ele tornava-se cada vez mais remoto. Ausentava-se, retirava-se, fingia partir. Rarefazia seu cheiro de ervas até que não passasse de uma suspeita verde no ar. Eu respirava mais fundo, perdia o fôlego no esforço de percebê-lo, dias após dia, enquanto flores e frutas apodreciam nos vasos, nos cestos, nos cantos. Aquelas mosquinhas negras miúdas esvoaçavam em volta delas, agourentas.

Tudo apodrecia mais e mais, sem que eu percebesse, doído do impossível que era tê-lo. Atento somente à minha dor, que apodrecia também, cheirava mal. Então algum dos vizinhos batia à porta para saber se eu tinha morrido e sim, eu queria dizer, estou apodrecendo lentamente, cheirando mal como as pessoas banais ou não, cheiram quando morrem, à espera de uma felicidade que não chega nunca.

Ele não compreenderia. Eu não compreendia, naqueles dias – você compreende?

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Escafandro

cigarrete.
.
Proteja, amor
até o último suspiro [pausa rápida para respirar]
este fôlego
naufragado em tantos beijos
e proteja sobretudo
o aqualung que eu te dei
ele é nossa garantia
de oxigênio até o fim…
um escafandro dá pra dois
e seu tua mãe quiser morar, eu deixo
faço a minha exigência:
vá dormir quando eu te beijo…
proteja, amor…

É que eu tô surtando

crySe você me encontrar assim, meio distante, torcendo cacho, roendo a mão, é que eu tô pensando num lugar melhor. Ou eu tô amando e isso é bem pior. Se você me encontrar rodando pela casa, fumando filtro, roendo a mão. É que eu não tô sonhando. Eu tenho um plano que eu não sei achar. Ou eu tô ligado e o papel pra acabar. […] Se você me encontrar num bar, desatinado, falando alto coisas cruéis. É que eu tô querendo um cantinho ali ou então descolando alguém pra ir dormir. Mas se eu tiver nos olhos uma luz bonita, fica comigo e me faz feliz. É que eu tô sozinho há tanto tempo que eu me esqueci o que é verdade e o que é mentira em volta de mim.

Medieval II

seaMe chamem de careta, de romântico, de antiquado ou os três juntos. Moderno é leite longa vida de meio litro, sensor de estacionamento, hambúrguer de microondas, internet wireless, asfalto feito com resíduo industrial, que servem pra suprir uma necessidade. Relacionamento aberto é dejeto do nosso convívio ególatra pseudo modernista e não funciona pra coisa nenhuma. Vai lá, como se coração tivesse saída para chip como telefone celular, onde você escolhe a companhia que deseja usar, contudo, a tecnologia do corpo humano estagnou no homo sapiens. Brega é calça boca-de-sino, andar de Maverick, fumar ou usar corrente de ouro, bigode e topete James Dean. Amor e vestidinho preto não saem da passarela. Amar e ser amado é que revoluciona a gente.

Alguém pra chamar de lar

wePerder tempo é a maior demonstração de afeto. A maior gentileza. (…) O tempo sempre foi algoz dos relacionamentos. Convencionou-se explicar que a paixão é biológica, dura apenas dois anos e o resto da convivência é comodismo. Não é verdade, amor não é intensidade que se extravia na duração. Somente descobriremos a intensidade se permitirmos durar. Se existe disponibilidade para errar e repetir. Quem repete o erro logo se apaixonará pelo defeito mais do que pelo acerto e buscará acertar o erro mais do que confirmar o acerto. Pois errar duas vezes é talento, acertar uma vez é sorte. Acima da obsessão de controlar a rotina e os próximos passos, improvisar para permanecer ao lado da esposa. Interromper o que precisamos para despertar novas necessidades. Intensidade é paciência, é capricho, é não abandonar algo porque não funcionou. É começar a cuidar justamente porque não funcionou. Casais há mais de três décadas juntos perderam tempo. Criaram mais chances do que os demais. Superaram preconceitos. Perdoaram medos. Dobraram o orgulho ao longo das brigas. Dormiram antes de tomar uma decisão. Cederam o que tinham de mais precioso: a chance de outras vidas. Dar uma vida a alguém será sempre maior do que qualquer vida imaginada.

Fluescência

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