Corpos Outros

Porque somos todos pedaços alheios.

Arquivos Mensais: julho 2014

Cuida dela

Diz pra ela que o meu bom dia ainda é dela. E que, se der, outro dia a gente se esbarra e eu levo umas flores pra ela. Faz dela um porto inseguro pra não se deixar levar pela rotina da maré calma. Beija o nariz dela que ela acorda na mesma hora e ainda dá uma espreguiçada com um sorrisão de partir o meu coração por não poder mais acordar ao lado dela. Cuida dela com ternura. Essa garota precisa de alguém com tempo e com todo o coração do mundo pra entender a alma dela. Deixa ela descansar a cabeça no seu ombro, mesmo que você sinta um pouco de medo de se mexer. Eu nunca consegui ficar quieto com ela do lado.

Diz pra ela que ela é meu sonho bom. E que vai ser dureza não ter ligação nenhuma no meu celular pra responder. Coloca um toque personalizado, mas não escolhe nenhuma música especial pra vocês dois. Puxa pruma valsa que ela sabe dançar bem demais. Ela tem um jeitinho de fugir dos meus braços que dá gosto. E não cai na armadilha dela, não. Se enroscar no pescoço dela é perigoso porque você pode ficar ali por tempo demais e se esquecer de olhar bem nos olhos dela. Diz pra ela que eu sei que eles não são castanhos. Os olhos e ela são doces como mel. Dá pra sentir no gosto do primeiro beijo na chuva. E carrega sempre um remédio pra alergia na carteira. Dá pra prevenir os olhos dela de lacrimejarem por algum motivo bobo. Cuida bem pra ela não chorar, viu?

Diz pra ela que eu guardei os ingressos do nosso primeiro cinema e que ontem tava passando o filme na Sessão da Tarde. Ela é meio egoísta durante o sono. Diz pra ela que eu sinto falta das conchinhas e que até parei de reclamar da dor nos braços. Abraça forte sempre que der e escreve uns poemas também.  Garanto que ela vai te inspirar a escrever um livro inteiro.

Diz pra ela que eu soluço só de pensar em como vai ser daqui pra frente e que o meu norte foi embora junto dela. E diz também que eu reconheço que ela deve ser mais feliz com você do que comigo. Diz que eu não me conformo, mas vou tentar pensar nisso como um desvio de percurso – e que, até a gente se reencontrar, eu vou tentar garantir a felicidade dela por meio de umas dicas e recomendações que eu vou dar pra você. Ela gosta de beijos molhados e pouca agilidade na hora de se despir. O suor dela tem um gosto bom, então não precisa – e nem pode – ter nojinho com ela. Compra cerveja ao invés de vinho e põe o chinelo dela na entrada pra ela se livrar logo do salto quando chegar. Não trabalha muito até tarde porque ela vai depender de alguma atenção sua pra ter certeza de que fez uma escolha justa em me deixar.

Cuida bem dela e diz pra ela que um dia a gente se encontra se ela resolver que dá pra ser feliz aqui. Mas se ela preferir ficar por aí, faz dela o seu grande amor. Diz pra ela que a solidão só anda doce porque eu ainda penso nela. E dá um beijo de boa noite na testa dela por mim. E não precisa dizer nada depois disso. Ela vai fechar os olhos e se lembrar de mim.

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Que seja

Que eu te encontre num dia ensolarado, nublado, chuvoso, com névoa e te diga alguma coisa. Que eu te reconheça no momento exato em que puser meus olhos em você. E que você saiba que houve um encontro ali. Que você esteja vestida de vermelho, amarelo, azul, verde, preto e branco. Que você me ache engraçadinho, pelo menos. Quem sabe tímido, quem sabe babaca demais, quem sabe charmoso, quem sabe eu nem te chame a atenção. Mas que você me veja com bons olhos e eles encontrem os meus. Que eu acerte a cor dos seus olhos numa brincadeira qualquer. E que aí você perceba o quanto eu te enxergo em tão pouco tempo. Que você seja amiga de algum amigo, ou a gerente do banco, ou a colega de faculdade, ou a menina bonita da balada, ou filha da amiga da minha mãe. Que você se encante comigo de alguma maneira. Que você se permita me conhecer melhor e saber que eu sou legal, ou que sou interessante, ou que não tenho nada a acrescentar a você, ou que eu sou um completo egoísta, ou que eu tenho um blog bacana que fala dessas coisas bonitas que as pessoas acreditam. Mas que você não seja um ponto final. Que seja as aspas, as reticências, o parágrafo, o travessão. Que você seja.

Que você saiba como eu sou complicado, ou que eu sou desajeitado, ou que eu sei dançar muito bem, ou que eu piso no seu pé porque não sei andar em linha reta, ou que eu detesto o cheiro de queijo ralado. Mas que você decida ficar e me conhecer mais, seja por curiosidade ou porque acha que pode se encontrar no meio da minha bagunça. Que a gente se conheça aos poucos, aos muitos, aos tantos, aos beijos, aos toques, aos olhares, aos filmes de fim de tarde, aos cheiros de perfume novo, aos dias de dormir de conchinha, aos minutos de ligações intermináveis.  Que você possa contar comigo, possa dormir comigo, possa brigar comigo. Que você não se arrependa naqueles momentos em que a gente questiona o amor, que você tenha orgulho de me mostrar pras suas amigas e que elas tenham inveja de você. Que eu possa te trazer café na cama, te dar um beijo de surpresa, te ver sem maquiagem, te morder até você ficar sem graça. Que eu não seja odiado pelos seus pais, que eles não me chamem de filho, que seu irmão torça pro mesmo time que eu. Que você me queira como pai dos seus filhos, que você se orgulhe de mim, que você esteja linda quando entrar na igreja.

Que eu possa te fazer sonhar. Que eu possa realizar os teus maiores sonhos e te consolar caso alguma coisa dê errado no meio do caminho. Que eu não saia nunca do seu lado, nem quando você pedir. Que os seus dias de TPM sejam lembrados com risadas e justifiquem aqueles quilos a mais que você ganhar com o brigadeiro. Que você chore bastante. Chore de rir, chore de saudades, chore de alegria. Que eu possa garantir que você não vai se machucar. Que o nosso filho tenha os seus olhos, a sua boca, o seu nariz. Que ele me lembre todos os dias de você. Que a gente caia um pouco na rotina e não mude por isso. Que a gente saia da rotina e se encante com algumas aventuras de vez em quando. Que a gente saiba reconhecer o valor da companhia do outro. Que eu te ame como nunca amei ninguém e que você me modifique da maneira que o seu amor quiser.

Nenhuma opção que não seja ficar um pouco mais

Se você se esquecer de pagar a conta de luz e a gente tiver que se enxergar no escuro, com dois pares de olhos de gato, desacostumados a andar no breu, eu viveria de tatoPassaria as mãos até reconhecer os seus detalhes, mapeando o seu corpo em braile como se eu já soubesse ler cada palavrinha do que ele diz pra mim. Mesmo que no fim do dia não tenha nada pra gente comer na geladeira e eu tenha me atrasado, prometido ligar e desligado, ter furado com você na porta do cinema por causa do trânsito e arrancado as suas plantas do vaso pela entrada brusca com o carro, eu juro que vou tentar não gritar alto.

Mesmo que a sua mãe me evite e eu seja grosseiro, dizendo que a comida dela de domingo tem um gosto clichê de segunda-feira que eu odeio, falando alto e atrapalhando o som das coisas que você ouve, esbravejando contra o seu jeito insistente de me dizer coisas que eu não sei ouvir, enrolando o tempo todo pra levar o lixo pra fora ou pra dizer que te amo, eu dormiria aqui. Na sala mesmo, pra te dar uns momentos de paz a sós e perceber que tu faz falta, guria. Que a gente cai nessa roda viva do dia a dia e se esquece de que ficou porque ama, porque sabia que ia ser assim, mas fere. Fere o outro porque é costume de toda essa gente ferir quem se ama. É porque a gente não trava a língua com quem ama – pra bem e pra mal. E eu não travo nada, mas deveria. Deveria segurar as coisas, contar até dez e me lembrar que pra todo estresse do dia, pra todo problema que surge, pra tudo de ruim que der na telha ou nas infiltrações, a gente tá junto.

Mesmo que a gente bata as portas com violência e diga umas besteiras-adagas, feitas pra machucar e arranhar a pele do outro, eu te juro que não iria embora. A gente daria meia-volta quando chegasse ao térreo ou pararia o carro na entrada da garagem esperando o outro gritar pra ficar (e mesmo sem grito voltaria pedindo desculpas). Mesmo que algo parecesse acabar e cavar um buraco entre a gente repelindo cada um prum lado, fazendo com que você não quisesse mais ouvir minha voz ou dormir comigo, tirando a graça das minhas piadas e trazendo bolsas pros meus olhos, eu ficaria. Mesmo que a gente trabalhe até tarde, durma fora alguns dias por causa das viagens, esqueça a comida dos gatos, deixe a torneira ligada e inunde o nosso andar inteiro, mesmo que tudo pareça dar errado e a gente chegue num ponto em que não se suporte mais, eu vou lembrar do exato momento em que pus os olhos em você.

Mesmo com a falta, com a toalha molhada, com a tampa do vaso levantada, com os berros, as crises, a TPM, seus pais, minhas tias, meus amigos idiotas, suas amigas idiotas, os pirralhos do 601, a TV fora do ar, a Velox que não pega tem 40 dias, o contrato atrasado do apartamento, a falta de atenção ou o prato na pia, a calcinha pendurada no chuveiro, as nossas manias irritantes e as escovas de dentes trocadas, mesmo que falte papel higiênico no banheiro e todas essas coisas que dão vontade de desistir da gente, eu não poderia. E mesmo que você me expulsasse, me pusesse pra fora de mala, cuia e sem cobertor, eu te beijaria e voltaria pra dormir do seu lado, apagar a luz e te buscar no tato, desse meu modo nada romântico, ultrapassado e agridoce de dizer que eu ainda vou te amar – mesmo com tudo isso – amanhã de manhã.

Depois de guardar

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E aí fico o dia todo caçando alguma coisa que me faça lembrar que o dia valeu a pena e que posso ir pra casa um pouco mais ampla, com as janelas mais abertas e os erros perdoados para voltar a cometer.

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Nossos abismos

large (3)

Por algum tempo, eles poderiam ter andado juntos sobre o mesmo trilho. Mas nunca seriam esmagados pelo mesmo trem.

Meio

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Assim passavam as horas: deitado na cama, olhando para o teto e escolhendo, entre todos os eus, aquele que melhor eu seria. Bastava permanecer parado para as estrelas acordarem ao primeiro sinal de escuridão. Aquele era o meu segredo: permanecer imóvel para viver o que não existia – o que ainda não e o que nunca mais.

Patienter

amorosa soledad

Tempo lento que não vai

há um lugar no coração que nunca será preenchido
um espaço e mesmo nos melhores momentos
e nos melhores tempos
nós saberemos
nós saberemos mais que nunca
há um lugar no coração que nunca será preenchido
nem pela mesma pessoa novamente.
e nós iremos esperar e esperar
nesse lugar. 

esperar até que a semente vire árvore
até que se volte da longa viagem
até que prefira morrer a chorar novamente
até que não aguente mais soluçar
até que você abra os olhos e veja que esse lugar no coração
nunca será preenchido, ninguém é capaz.

e você vai esperar e esperar nesse lugar
encontrará pessoas, iludirá outros como sempre fez
mas não demorará para que percebas que a ilusão
sempre se fez presente na sua mediocridade vital.

há um lugar no coração que nunca, de maneira ou modo algum,
será preenchido. Ficando apenas
a ferida aberta, exposta para os insetos que te rodeiam.

Eu estou morrendo.
Mas não estou morto ainda.

Fluescência

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Fierce People

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Pensar Longe

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Aqui dentro de mim

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Lembranças Inconscientes

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