Corpos Outros

Porque somos todos pedaços alheios.

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Um inteiro sem muito mais

ciúmeHá, em amor, um problema sem possibilidade de solução: – o do ciúme. Quem ama, sente, fatalmente, ciúme. Com ou sem motivos. Isso tem sido assim através dos tempos. Muita gente diz: – ‘Ciúme é falta de confiança’. Seja e não importa. Na minha passagem pelo mundo, venho constatando o seguinte: os amorosos que têm confiança não são amorosos. Ou, pelo menos, não conhecem, ainda, o amor. Observei, também, o seguinte: – quem ama, desconfia, sempre. Desconfia das bobagens mais inverossímeis. Essa desconfiança não apresenta uma base racional, e sim uma base afetiva. O amoroso perde a lucidez, a objetividade, julga através de critérios sentimentais e precaríssimos, usa, para suas conclusões, os dados mais infantis. Acho que o primeiro casal do mundo – no caso, Adão e Eva – deve ter passado pelas mesmas experiências psicológicas. Imagino as brigas, as suspeitas que povoaram o paraíso. Imagino os conflitos, os bate-bocas. No plano do ciúme, Adão e Eva pouco diferiam de um casal dos nossos dias.

Por isso, me espanta que, nesta altura dos acontecimentos, alguém se escandalize porque a criatura amada tenha ciúme. É o que sucede com Miriam. Ela me escreve uma carta sentidíssima. Seu namorado parece, à minha leitora, o melhor do mundo. Ninguém mais cavalheiresco, ninguém com maior solicitude e com uma palavra mais amável e doce. Ele nasceu com a sabedoria dos galanteios que tocam fundo a alma da mulher, que fazem germinar, na alma da mulher, os sonhos mais ardentes. Incapaz de uma grosseria, de uma desatenção, sempre pronto a acariciar, a compreender. Em uma palavra, uma pérola. E seria, de fato, uma pérola cem por cento, não fosse um defeito grave, fonte de atritos e de mágoas: tem ciúme, o rapaz. E ciúme feroz. Miriam escreve-me, fazendo as queixas mais profundas. E diz: – ‘Eu daria tudo para ele não ser assim!’ Pobre Miriam, ingênua Miriam! Mal sabe ela que pior, muito pior do que um homem ciumento é um que o não é. Nada mais desinteressante para uma mulher, nada que decepcione mais, que desencante, do que um homem simples e tranqüilo, que confie nela, que a coloque acima de todas as dúvidas e suspeitas. Vou mais longe: isso é mais do que desagradável – é humilhante. Por quê? Muito simples: porque significa que, na opinião do homem, a mulher não deve inspirar o menor interesse aos outros homens, ou, então, que ela própria deve ser algo de inumano, e, como conseqüência, infalível. Isso, por um lado. Por outro lado, o ciúme não quer dizer, necessariamente, desconfiança. O homem pode confiar, cegamente, em uma mulher e, ainda assim, ser ciumentíssimo. Ele não admite a traição, não quer que ela desvie um milímetro de sua atenção, cuidados e pensamentos, para outro homem. Outro aspecto: – o ciúme serve de estimulo vital para o amor. Observação comum esta, porém, de uma verdade essencial e eterna. Eu sei que Mirim alega: – ‘Ele não tem o menor motivo’. Claro, Miriam, claro! E é preciso que assim seja, ciúme com motivo, com razões fundamentadas, significa que houve infidelidade, traição e que não existe outra alternativa, senão o rompimento. O bom, o doce, o recomendável ciúme, é aquele que nasce sem razão, que nasce sem motivo, que se não baseia em nenhuma prova concreta. Passa, então, a significar, apenas, amor, interesse, ternura e esse universal sentimento de exclusividade. Do contrário, significaria amor-próprio, dignidade ferida e honra.

Portanto, o ideal, o justo, o necessário é o ciúme sem motivo, o ciúme, digamos assim, irracional, no sentido de que prescinde do raciocínio. Ai de você, Miriam, ai do seu amor, se o bem-amado tivesse razão! Ela se lamenta de que o bem-amado tem ciúme. Devia se lamentar e chorar todas as suas lágrimas, se ele não tivesse.

Por não ter nada a dizer

 

Falam de tudo. Da moral, do comportamento, dos sentimentos, das reações, dos medos, das imperfeições, dos erros, das criancices, ranzinzisses, chatices, mesmices, grandezas, feitos, espantos. Sobretudo falam do comportamento e falam porque supõem saber. Mas não sabem, porque jamais foram capazes de sentir como o outro sente. Se sentissem não falariam.”

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Nelson Rodrigues

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