Corpos Outros

Porque somos todos pedaços alheios.

Arquivos da Categoria: Valentino Leo

Ei,

Eu não te amo, não gosto de você, não te quero pra sempre. Você não é tudo que eu quero. Não é o amor da minha vida. Você não é nada disso. Nada disso que esses namorados agarrados em praças, abraçados em bares, trancados em carros suados, deitados em motéis ficam dizendo.

Você não é nada disso que esses poetas ficam falando e falando e esses cantores ficam cantando e cantando por aí. Eu não te amo, não gosto de você, não te quero pra sempre. Você não é tudo que eu queria, Não é o amor da minha vida. Você não é nada disso.

Não tem nada a ver com esse amores de televisão, essas coisas grandes que a gente fica invejando. Esses tantos de declarações que ficam repetindo e repetindo e falando cada vez mais alto.

Toda vez que falo que te amo, quero desfalar. Me dá vontade de entrar no seu ouvido, pegar cada uma das letras, colocá-las de novo na minha boca que engolir com um copo de água. Porque eu não te amo. Já te amei muito, mas não te amo mais. Toda vez que falo isso ou alguma coisa parecida é mentira.

Porque toda vez que digo te amo é como se te xingasse, como se te desrespeitasse. Como chamasse o Papa de você. Como se chamasse Deus de amiguinho. Por isso não te amo, por isso não me declaro, por isso não agradeço por você existir: quem é vivo nunca percebe a vida.

Quando se diz ‘Te amo’ é como se disséssemos ‘olha, isso é o máximo que eu consigo dizer, é o limite entre o que dá pra falar e o que não dá pra falar. Como passei dessa placa já faz alguns quilômetros, eu não te amo mais.

Você já parou pra pensar que falar de sorvete é fácil, falar do gosto do sorvete é fácil, mas falar o gosto do sorvete é impossível? Você nunca vai conseguir falar o gosto daquele sorvete – pode até falar do gosto, mas nunca o gosto. Nenhum adjetivo consegue mostrar o que você sentiu quando ganhou a primeira boneca, quando viu o mar, quando o cachorrinho morreu, quando quebrou o pé,  quando menstruou. É como se essas coisas estivessem trancadas dentro da gente e não tem jeito de fazê-las sair. Tudo que a gente fala não as tira de dentro. Nem as mostra pros outros. Só avisa que tem alguma coisa ali. Alguma coisa, não fala bem o quê. Fala de um sorvete, mas não de qual, de uma alegria, mas não de que cor, de uma dorzinha, mas não de que sabor, de que cheiro, de que textura, com quantas curvas, de quantos gramas, nascido em que dia, de qual ascendente, filha de quem, estuda em qual escola, ouve que tipo de música, não fala se aquele medo sabe dançar, não fala se aquele azedinho do quiabo é bom de futebol, não fala com quantos ornitorrincos aquela porta já conversou ou com qual fonte se escreve timidez. Falar não fala nada. Não adianta pras coisas importantes. É um quebra-galho bem fuleiro.

Se isso é assim com feijão-com-arroz de todo dia, imagina depois do eu-te-amo!

Por isso quero falar cada vez menos com você e que você desconfie cada vez mais depressa. O depois de amar é aprender a ficar em silêncio. Depois do amor a declaração é ir se calando, ficando quietinho num silêncio quentinho. Aceitar que não dá pra chegar, só chegar perto. Ficar te olhando, te olhando até não precisar te olhar porque até quando vejo o teclado do computador estou te vendo. Ficar lembrando, lembrando de você até poder te esquecer porque não dá mais pra te esquecer. E tudo sem fazer barulho, sem gritar, sem pôr roupa de sair, sem comprar presente caro, sem passar perfume. Só uma timidez segura, uma pobreza rica, uma humildade arrogante, correr dormindo.

Eu não te amo, aceite isso. Aceite isso que é o melhor que eu tenho pra te dar. Não te quero, não te desejo porque o céu não quer o azul, porque a chuva não quer o molhado, o lápis não deseja escrever, o sono não quer dormir, a música não quer nem saber de melodia, a letra não pretende a palavra nem o canto a voz, entende? Você em mim é o verbo de mim.

Não quero ficar com você pra sempre, quero é ficar com você meu passado inteiro, até bem antes da gente nascer. Quero é viver o que já vivi antes de te conhecer cinquenta e três vezes contigo, aí a gente descansa, vive mais uma, descansa de novo e vive mais setenta e duas. Não quero saber de futuro contigo: vamos rasgar tudo que é relógio de alguma coisa e molhar tudo que é calendário e rabsicar tudo. Não quero saber de amanhã nem depois de amanhã. Quero que às seis da tarde nunca cheguem. Nada de casar, pagar Unimed e ficar velhinhos e viajar. O objetivo é ir ficando moleque, menina e menino beijando estalinho atrás da igreja, cada vez mais irresponsáveis, pulando janelas das suas casas e roubando frutas. Vamos ficar treinando origami com meu corpo, até você inventar uma dobra danada que me faça caber embaixo da sua unha, aí você me rasga em des pedaços, um pra cada dedo. Depois disso você já pode comprar uma torta de chocolate com limão e conhaque e comê-la com as mãos, se lambuzando. Depois você vai lamber as pontinhas dos dedos e me guardar suavemente, sem mastigar.

Não te amo, não te quero e nem quero saber de pra sempre. Que o mundo acabe em sorvete e namoro. Não, não. Que ele comece.

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